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5.30.2006
A mulher que buscava Algo com a ponta do dedo.
A insaciável, depois de procurar no alto dos montes, em imagens sem rosto e no fundo de poços abandonados, passou a ir de beco em beco, aguardando ansiosamente a revelação de uma fresta num canto, a simetria em uma mancha na parede ou redemoinho de pó. Deteu-se a decifrar as vigas subterrâneas da vida.
O contato com restos de comida e plásticos das sarjetas tornou-a mais desperta ao mundo sensível – mas o que ela buscava encontrava-se além do lodo no qual se punha a questionar o reflexo do céu – fazendo com que toda a relação direta com a realidade se tornasse intolerável. Assim, uma simples pedrinha hachurada era indício de um rio antepassado e uma clareira; uma ponta de lápis, uma semente perdida no interior da terra e do tronco que se transforma em pedra, em cadeias de referência que se desdobravam ao infinito.Viveu desta forma por muitos anos, apreendendo o mundo através do conhecimento pleno dos signos, sem, contudo, encontrar nada, nem sequer uma trilha absoluta, uma pegada inequívoca. Nada.
No fim da vida teve um colapso nervoso; caiu de cama. O trato diário fazia-a encostar muito em si mesma. Nunca imaginou tantas certezas concretas ali. Com a ponta do dedo se perscrutava longamente, cada orifício e articulação. Em meio às dobras de seu corpo ela encontrava, enfim, uma pequena centelha de satisfação. Uma satisfação morna como uma toca.
Nesses primeiros meses, ela-coelho levantava-se cedo, caminhava até a mesa e, ainda trêmula, escrevia suas úmidas visões.
O contato com restos de comida e plásticos das sarjetas tornou-a mais desperta ao mundo sensível – mas o que ela buscava encontrava-se além do lodo no qual se punha a questionar o reflexo do céu – fazendo com que toda a relação direta com a realidade se tornasse intolerável. Assim, uma simples pedrinha hachurada era indício de um rio antepassado e uma clareira; uma ponta de lápis, uma semente perdida no interior da terra e do tronco que se transforma em pedra, em cadeias de referência que se desdobravam ao infinito.Viveu desta forma por muitos anos, apreendendo o mundo através do conhecimento pleno dos signos, sem, contudo, encontrar nada, nem sequer uma trilha absoluta, uma pegada inequívoca. Nada.
No fim da vida teve um colapso nervoso; caiu de cama. O trato diário fazia-a encostar muito em si mesma. Nunca imaginou tantas certezas concretas ali. Com a ponta do dedo se perscrutava longamente, cada orifício e articulação. Em meio às dobras de seu corpo ela encontrava, enfim, uma pequena centelha de satisfação. Uma satisfação morna como uma toca.
Nesses primeiros meses, ela-coelho levantava-se cedo, caminhava até a mesa e, ainda trêmula, escrevia suas úmidas visões.
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