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6.08.2004
Da criação (vers. II)
Compassos. Na esquina dobrada, numa rua daquela cidade, passava um rapaz com sua flauta mágica. Não era Mozart. Seria um nome ridículo para alguém no seu ofício. Era Ivanhoé. Professor. Sobretudo nas noites frias, as mulheres vazias desejavam o flautear de Ivanhoé, e Ivanhoé, que não era um cara mesquinho, saia, assim, depois do expediente, flauteando pelas ruas do sem-fim. Os mendigos – acordados pelo doce som – logo se punham a bailar, alguns até puxando ratos como parceiros, desenhando cirandas. Após estas algazarras, Ivanhoé recebia uns trocados dos mendigos, uns tapinhas cordiais dos ratos, e se ia embora. Gastava o resto do asfalto até sua casa em serenetas serenas. A chegada em sua cozinha era silenciosa – Guten Abend, Herzlich. – Guten Abend, Ivanhoé, wie geht’s? – Ich bin prima. Iss! – Ele se afastava do aquário com o pote de comida para peixes nas mãos, guardava-o no armário sobre a pia, entre a caixa de gergelim e os enlatados de milho. Pegava em seguida a aveia; na geladeira, o leite. Misturava tudo numa tigela amarela. Á mesa, já sentado, olhando para o vazio num sustenido constante, enquanto escorria um fio de leite do canto de sua boca, Ivanhoé pensava em mim, Amanda.
Sei disso porque eu sou Ivanhoé.
Rápido me acostumei com os estranhos volumes e os pêlos no tórax: resumidamente é como ser seu próprio gato. Aliás, durante semanas e semanas convivi em Ivanhoé. Cada gesto melodioso, cada gosto, cada suspirar e demonstração súbita de ira. Lá estava eu. Cada agenda, lista, cada staccato diante de insignificâncias. Ali eu estava. Na cor das camisas, no jeito de amarrar os cadarços pra trás pra cima volta e puxa. Em cada livro disco e segredo culinário de família. Ivanhoé era um homem perfeito par uma garota de olhos grandes e cabelos pretos como eu. Ele sabia me tocar por dentro como ninguém ousaria.
Mas, dia após dia Ivanhoé autoditava-se mais.
No primeiro daqueles dias, ele acordou com um gosto de mucosa na boca. Foi para o banheiro, trôpego. Mijou fora da privada, tudo bem, não tem problema, é a primeira vez em anos, ponderei ingenuamente. Depois do almoço, jogou os legumes (que nem tocara) dentro do aquário do Herzlich. Levantei de leve os olhos do livro que lia. Ao anoitecer, Ivanhoé abriu uma garrava de Scotch que estava escondida atrás do guarda-roupa e tomou um porre, sentado num canto, vendo seu rosto no espelho.
Desse dia em diante, Ivanhoé começou a fumar e praguejava o dia todo. Ai eu já nem disfarçava o biquinho ao passar pela porta do seu quarto. Rasgou todos os posters do Win Wenders; numa tarde quente queimou todos os seus livros de filosofia. Na época, todos da escola não o suportavam mais. Não telefonava para sua mãe. Pegou o hábito de ir para o cinema quando queria dormir com alguém. De comprar cd’s do Dylan e não ouvi-los. A flauta enferrujava debaixo da cama. Emagreceu. Embarbeceu.
Na ultima lua minguante Ivanhoé comprou uma forte corda, pendurou-a, serrou o pé da cadeira – ele queria aprender a dançar tango – nesse instante, porém, alguém bateu à porta. Seria ela? Com um salto Ivanhoé abriu a porta e lá estava ela. Ele a amava repentinamente. A vadia de olhos pretos e cabelos grandes chamada Amanda.
Ela trazia um macarrão pré-pronto e uma coca para jantarem.
O livro dos mortos
Enquanto o trem partia atrás de si na plataforma, ele desviava os olhos da mulher do outdoor do pequeno de costas grandes e sobremaneira das próprias mãos. O gancho é limpo com esmero.
Sai, atravessa rápido as ruas, cortando pernas e precipitando desencontros. A amorfidade humana estirada na calçada impede-lhe o salto. Obliquo, ele observa os lírios do campo – um aro comprido e fino sobe-lhe o reto, e desce, em etapas, trazendo o crescente fértil. Mais leve, ele passa.
Um acidente.
Gritos, braços que não podem ser contidos, cabeças distorcidas, choro: A Guernica urbana de cada dia. Enfim, a esquina. O que seria dos homens se não fosse a perspectiva das esquinas ... O céu como ponto de fuga universal para os que estão abaixo do Sol. Milagrosamente há o céu. Ele compra mirra, canela e azeite. Na portaria, o irmão morto: relevar, pois relevar é preciso. Seguir pelas canaletas subterrâneas como os outros homens mudos – para longe da cova dos leões, a procura de dentes-de-leão.
Telefonemas ininterruptos, reuniões acaloradas, cifras quilométricas. As costas foram costuradas com tripas, o ventre já está cheio de sândalo agora.
Crianças.
Esposa.
Jantar.
Os cantos vazios do ser:
Os gatos, Íris, o ópio e os potes de barro.
O silêncio é o sal; a solidão, o sudário. Em honra de Anúbis, o cigarro queima. A reza gasta no manipular das contas, murmúrios que caem dos lábios como mangas podres. Veja os pássaros, ele diz para si, veja os pássaros seu burro escroto do caralho
A mulher de costas e com as mãos nos ouvidos prepara o sono.
Forçosamente, ele agacha-se atrás dela e repousa. Ela vira-se, beija. Afasta-se para a beira da cama como um obelisco caído.
Em minutos milhões de patas partem do interior de sua garganta num ritmo vertiginoso – a lacraia nasce intacta e brilha
: chamar-se-á Kabta, Nossa Melhor Parte, a ungida, a imaculadabjeta
N-O-S-S-A-M-E-L-H-O-R-P-A-R-T-E
“Penso em quando isto vai acabar. Do lado oposto desse rio, há aquele homem guardando o ponto mais recuado deles. O rosto, eu não conheço, nunca o vi. Apenas o movimento do cigarro na madrugada, vai e vem. Um acente-apaga indiferente. Que arma ele carrega? Sei que é um como eu, mesmo à distância, tendo esse grande rio congelado nos separando. Será um fuzil PK42, ou um lança granadas daqueles que eles usam contra aviões? Teria pouca utilidade contra um só homem. Uma PK42, ao contrário, seria muito eficiente se fosse usada por um soldado treinado. Já vi matarem centenas numa aldeia, com uma delas. De qualquer forma, sua munição é cara; acho que não entregariam-na para um guarda-fronteira de um fim-de-mundo como este. Como faz frio esta noite, companheiro! – há, há, - também lhe deram algum cobertor imundo fedendo a bosta de vaca?, e o café?, tem o mesmo gosto de merda, como o meu?,
Margô fazia um ótimo café aos domingos, quando voltávamos do parque. As cartas dizem que ... que? disparos ...? O camarada tem alguma pequena?; longe desse lugar deserto cercado de neve, deve haver alguém em quem pensa além de ... é só uma coruja, xô, xô! Diabos, o cigarro da divisão acabou. Está frio, não é mesmo? Estará pensando em dormir depois de ter visto-me sair da casamata,idiota, assustado com uma coruja? Há, há, uma corujinha de nada ... Já está na hora? ainda é cedo... Será do tipo que raciocina, camarada do-outro-lado? È sério ou do tipo que dorme em cima do fuzil e acorda com um tiro nas coxas? Há,há,há, essa do tiro nas coxas foi boa, seria engraçado de se ver -
Agora, depois do cigarro. Isso isso a luz chegando como um vaga-lume do oeste. Eu te invejo, meu camarada, esse cigarro deve estar te fazendo lamber os beiços, a saliva se encorpando ... Eu te mataria por seus cigarros, meu camarada. Esse frio maldito, essa guerra estúpida, a casamata cheirando a urina, a noite que não termina nunca – meses meses sozinho , é isso, te mataria.”
Do lado oposto do rio, o outro soldado acabara de fumar e preparava-se para se deitar numa rede, mas um estrondo vindo da casamata na margem inimiga corta a fronteira e o faz pegar em sua arma.
É um estridente berro de boa noite.
Das Mil e uma noites
Ahafaa, o cavalo
Conta-se que Ahafaa, o Vento leste, a Maravilha negra, a Jóia da Anatólia, de repente adoeceu.
Seu maior admirador, o sultão, procurou os mais doutos nas artes da cura. Xamãs da Mongólia, brâmanes de Bombaim, filosófos persas, cirurgiões tibetanos, ninguém dera resposta às dores do animal até que um garoto das estrebarias ousou - Por que não o soltam? - assim se fez e a comitiva real passou a seguir Ahafaa.
Correram-se areias, neves e línguas sob as estrelas. Comeram-se os camelos em tiras cada vez mais finas - logo os perseguidores venderiam seus anéis para comprar água, trocariam seus brincos por lenha, seus colares por raízes: venderiam até a pele grossa de seus pés. Ahafaa nunca parou.
No fim de um doloroso prado avistaram pela última oportunidade Ahafaa.
Conta-se que abruptamente o cavalo encontrou sal e caiu.
O diário de Sócrates I
Douglas
Durante sete vezes sete anos Douglas trabalhara ali. Durante todo esse tempo nunca conhecera outros domínios que extrapolassem a comarca da sua escrivaninha estéril, com seus planaltos de formulários áridos e desertos de clips. Praticamente apodrecia ali. Sei que parece repugnante a idéia, mas realmente Douglas nasceu ali.
Não. Esta cara de asco de vocês nada me diz - uma pessoa que foi concebida e criada encerrada dentro de um escritório, com certeza é algo absurdo, assim como a decorrente consideração de chamar por Mamãe a um mimeógrafo, mesmo que tal máquina o tenha ninado por tanto tempo com cantigas em duas vias.
No entanto assim foi.
Douglas, crescendo ano após ano, depois envelhecendo, dia após dia, olhava com medo para os vultos que passavam atrás da persiana; as vozes no corredor detrás da porta obrigavam-no a se deitas de bruços em seu catre de rascunhos.
O passar das crises econômicas fez de Douglas um prolongamento da seção, ponderavam os donos que sucessivamente apareciam. Sabem, como uma velha cadeira giratória, uma mesa grande, um balde no armário de vassouras etc, etc, etc.
Bom, como todo bom escravo, Douglas precisava de comida - o que era o desconsolo de todos os seus patrões, mas sobretudo do atual, Augusto.
Assim, então, no meio de cada miserável dia de labuta moura - exatamente no meio - Douglas reclamava por sua marmitex e a recebia com salamaleques faciais que dir-se-ia serem um sorriso.
Durante sete vezes sete anos assim fora.
Mas um dia ( não me lembro bem quando), Douglas esperava aquele momento supremo de gozo ( a hora do rango) e nada aconteceu. havia uma foca. Não, não estou exagerando, absolutamente nem uma mosca se moveu. Se não fosse a desbendita torneira do banheiro a repingar, Douglas acreditaria que o mundo parou de vez. Aqui cabe um pequeno parênteses ( Para alguém que foi enclausurado desde a mais tenra infância, a perspectiva de um Apocalípse é muito atraente, e talvez seja esse pensamento que passe na cabeça de Douglas neste momento, daí o que fará agora). Se preparava para fazer aquilo que todos fazem quando não há ninguém por perto - sim, era uma catota* enorme lhe incomodando por anos! - mas havia a fome, Ó, A Fome!
Desabaladamente, Douglas foi abrir a porta que durante toda sua vida bovina lhe fora negada, abriu e saiu.
Algo de cáustico acariciou-lhe a face.
O Branco.
Não havia nada lá fora. Só. O Branco.
Inexorável. Incorrompível. Um Branco longínquo. Um Branco devasso colado em sua retina.
Um Branco mongólico.
Só.
O.
Bran.
Co.
[Mas havia a fome, Ó, A Fome!]
* Pedra nasal; também na variante catóta.
O diário de Sócrates II
O profeta
É sabida a história do profeta que era capaz de ver o futuro no vôo dos pássaros. Relatos do período nos dizem que o santo-homem percorria as vilas ofertando seu dom ao gentil povo em palavras adocicadas. A um camponês, certa feita, previu a multiplicação da rês, a outro, fartura no rastro do arado. Em Palas, um homem público abordou ao vate, e este, após observar o vôo de um pardal, expôs que em um prazo de dois dias aquele senador receberia dois mil talentos como herança, fato que viria a ocorrer e maravilhar a todos.
Diante disso, as pessoas passaram a procurá-lo, uma turba seguia sua cabeça sempre erguida para o céu. A fama passou a antecedê-lo aonde quer que buscasse parada, o que , todavia, fazia com menor frequência.
Começou a afastar-se dos vilarejos, queria os ermos, cruzando às vezes determinada campina incessantemente, até voltar ao local da partida, dias antes. Abstinha-se já de roupagem e comida. Delirava. Os pés sangravam em gretas e granizos, porém nada o detinha. A multidão de fiéis, acreditando ser isso prova da natureza divina do homem, que provavelmente os levaria a um lugar sagrado, livres da opressão e da dor, deixava-se apenas conduzir. Foi quando, num crepúsculo de outono, avistaram a sombra do profeta se arrastando em direção ao despenhadeiro. Ao despencar o santo nos dentes de pedra do mar, muitos se escandalizaram, e houve gritos de pavor de não se ouvir mais coisa alguma.
Por fim, alguns ainda se atreveriam a tomar-lhe o exemplo, e cairam, relembrando o passo seguro que conduziu o mestre à morte. Mas com o passar dos momentos, a maioria das pessoas não via vantagem no ato e retornava a suas vilas.
Nenhum deles sabia, mas há anos os olhos do homem não viam nada além de fezes de aves.
Sobre o santo-homem, dizem que se chamava Egeu, o Prudente.
O diário de Sócrates III
A cidade
Era uma vez, além do reino não-civilizado do Eldorado, um pouco acima dos portões de Shangri-la, uma cidade encantada chamada Pineapple. "As ruas", como diria um messias recentemente morto por uma esmola, eram "feitas de ouro e os postes de esmeraldas". Havia, naquelas praças, fontes de água mineral e não é de se estranhar que a qualquer hora você pudesse encontrar um famoso curandeiro ou um ex-ditador saindo do Theatro.
Quase não havia miséria por lá.
Os mendigos, ou eram profetas ou cineastas fracassados. Em alguns casos eram os dois. Os coletores de impostos eram esquimós e o próprio prefeito era um guerreiro sumério com várias chacinas nas costas. Garotos pobres montavam bandas de rock e ganhavam rios de dinheiro e filhos para tomá-lo. As prostitutas faziam crediário. Os traficantes vendiam asas de cera em cinco cores e tamanhos diferentes. A cidade respirava magia, o que posso dizer? Todavia, não havia bruxas por lá, só maçãs, doces e vermelhas, doces e quentes, irrompendo debaixo de pontes de cristal ou no alto de edifícios de caramelo. De repente.
E exceto pelo porão dos Smith, não existia maldade por ali.
Ali morava um Demônio.
Ali, e não é de se estranhar de encontrá-lo ali, vivia Al-terror, e Ali-babava na escuridão.
No Dia-da-Grande-Forca (feriado nacional) os Smith recebiam um grande coala recheado. Orava-se pela saúde do rei, para que as crianças fossem para a cama no horário, para que os aviões não parassem de ser fabricados, para que os visigodos não ultrapassassem as fronteiras. E principalmente, meu Deus, que aquele som vindo da T.V. não passasse de um fusível, só um fusível. Amém.
No dia seguinte a mãe jogava os restos no porão para que o Demônio (que fazia as crianças tremerem e irem para a cama) desputasse os ossos com alguns niños que lavavam os pratos, depois ela ligava sua abóbora conversível e ia trabalhar no Consulado das fadas. Sim, lá as mulheres trabalhavam fora, ainda por cima.
Posted by: jefferson / 7:48 AM
O diário de Sócrates IV
Pedro e a Lâmpada
Numa daquelas esquinas da Doutor Arnaldo, debaixo do outdoor da Renoult, vive Pedro.
Pedro costuma sonhar com um pescador de peixes-espadas de aço e barbatanas de alumínio brilhante. Relusente. Não adianta nem dizer, para Pedro, Hemingway é uma marca de maionese, ele não sabe sonhar, tadinho, mas depois de fazê-lo ele então acorda devagarinho com os olhos cheios d'água - O CO2 desvirgina cedo a aurora - e sorri.
* * *
Às quintas e domingos pela manhã, podemos encontrar Pedro atrás da Casa Brasil, raspando o fundo de um tonel de lixo com uma espátula cuidadosamente improvisada. Os cães já sabem quando o vêem de olhos claros mastigando alguma cartilagem: é natal para Pedro. - Hí, Hí, Hí, Ananias... - ( era Pedro rindo do faxineiro do restaurante, Ananias, chegando tarde como sempre).
Feliz, entretanto, está Pedro quando passa a noite se contorcendo no caixote podre, se revirando de gozo e aflição, girando, como a abóboda celeste sobre a sua cabeça negra. No estômago sem estrelas de Pedro só existem unhas postiças que estavam na poça fétida onde bebera. Lindas lascas vermelhas estralando no fundo preto de Pedro - e ele sorri ( como sempre ).
Misteriosamente, certo dia Pedro parou de assoviar com os lábios rachados a melodia que ele não sabia mas era satisfaction. Cotucou o cucuruco quando terminou de vasculhar o lixo do casarão. Apesar da madrugada, certamente era uma bela lâmpada mágica ali. Ninguém. Não sabemos direito como foi parar lá, mas havia lençois limpos, água quente, mulheres, mulheres que tomavam banho e faziam café-da-manhã. Manhã. Seus olhos rodavam nas orbitas por toda a superfície dourada angustiosamente. Relusente. Segurava-o.
( Horas mais tarde, e o homem semidesperto do Ferro-velho mal podia acreditar que houvesse coisa tão bela no mundo, Pedro chupava o maior sorvete de morango que podia caber num pote de margarina.)
Só era segunda-feira e tinha que se-virar com aquilo até a próxima quinta.
A água
Sou jornalista. Mas até onde ela me contou, tudo que sei é que isto começou com o insólito caso dos gatos. É provável que mesmo depois de relatada a questão, não fique claro o motivo que levaram-nos a sumir da cidade. Como uma inversão na ordem natural das coisa, do dia para a noite, todos fugiram.
Só então os ratos apareceram.
Milhares.
Uma cascata inquieta deles atropelou os aposentados nas calçadas, saindo dos becos, dos bueiros, latrinas e sacos de aniagem, ninhadas inteiras saquearam as ruas.
Seguiam para o poente, não sei aonde. Chile, talvez.
Corriam, e isso eu sei, de uma ligeira, tenuíssima película de água de vagar devagar que avançava, tomando as primeiras ruelas,
sutilmente.
* * *
O estranho episódio da água que começava a sitiar os Distritos foi deixando a população irritadiça no inicio. Quando a correnteza demonstrou ser capaz de arrastar carros e mendigos e cães, os cafés franceses na Rua J. L. Borges já se encontravam falidos. Subitamente todos entenderam que algo terrível estava pra acontecer (argentinos ... os cafés chiques precisam falir para eles se preocuparem de verdade). Alguns bairros de Buenos Aires, pois não se tratava de outra cidade, ficaram totalmente ilhados deste então. Não se podia sair para trabalhar, as crianças não iam para as escolas. Faltava comida e água potável para os mais carentes. A caudalosa água negra condenou os munícipes à reclusão. Não preciso mencionar a repercussão desses fatos mundo afora. Comunidades estrangeiras faziam campanhas para a doação de roupas aos flagelados argentinos. A ONU prometeu ajuda imediata, os EUA especialmente. No Uruguai, o cantor Sting fez um show com alguns grupos latinos, inclusive brasileiros, em prol dos milhares de desabitados. Nunca se ouviu tantos cds de tango no mundo, especialmente Piazzolla.
O planeta se sensibizava enquanto o caos rondava as ruas da cidade. Histeria geral. Pestes. Semanas e semanas de prisão em família fizeram os casos de suicídios aumentarem.
A anarquia abria franquias.
* * *
Uma das primeiras providencias do Presidente argentino foi nomear um Ministério Extraordinário, cuja meta era descobrir um culpado para o desastre.
Da cabine de alguma rádio sensacionalista, das muitas que infectavam a cidade, saiu uma das prováveis explicações para a água que irrompera em B. Aires. O locutor dizia que " Num ato terrorista, o governo brasileiro decidiu destruir a hidroelétrica de Itaipu, a maior do mundo, e desta forma desestabilizar o Estado Soberano Argentino com a submissão de sua Capital ". O radialista ainda falou sobre uma possível cumplicidade do governo paraguaio, não obstante as perdas ao território deste pais causadas pelo fenômeno agora chamado pela mídia de Alagacion.
Diante de tais anúncios, a violência, é óbvio, explodiu.
Tropas foram mobilizadas para a divisa com o Brasil. Na cidade também houve tensão: a pilhagem com o uso de botes improvisados era comum. Invasões, arrombamentos. Retirantes mais afortunados invadiam as cidades fronteiriças, para fora do Alagacion. E o que, afinal, era esse (essa) Alagacion? Místicos falavam que provinha da Era de Peixes, religiosos proclamavam a não original teoria do Dia-do-Juizo. Os ecologistas usavam o desastre para suas campanhas pelo globo. O Green Peace invadiu uma refinaria de petr]oleo no Alasca usando-o como justificativa. Mas voltemos à cidade, já que a desordem generalizada chegava ao ápice: um turista português era linchado, por engano. As coisas não podiam continuar assim, No more No more. Os EUA insinuavam uma possível intervenção no local. Muitos mortos apareciam na t.v.
Por capricho, o destino quis que justamente outro português, por este haver escrito um livro acerca de uma tragédia natural inusitada, que este homem, dizia eu, fosse indicado O Conselheiro da cidade. O escritor comunicou oficialmente não entender o pedido, sendo ele apenas um ficcionista, nada podia fazer contra o Alagacion, função que, dizia o lusitano, cabia ao povo e aos especialistas, geólogos, climatólogos, etc, etc.
Pressões por parte do governo argentino conquistaram o direito a uma expedição de inspetores do Ministério de Defesa ao território paraguaio e brasileiro, seguindo num barco de pesquisa o curso do rio Paraguai até o final, onde estaria a Represa. Concomitantente, o prefeito de Buenos Aires começava as obras de adaptação da cidade ao desastre.
Finalmente a ajuda das Nações Unidas chegou a Buenos Aires depois da assinatura da promissória, no último abril, em Washington.
* * *
Comoção, um empenho extraordinário, e em cinco meses a comunidade internacional olhava boquiaberta a nova B. Aires. Um descomunal - mais impressionante que a palavra - sistema de canais navegáveis foi erigido, seguindo o curso das ruas e avenidas submersas. Diques construídos para atenuar a corrente eram vistos do Porto. A arquitetura da cidade alterou-se, prédios históricos receberam atenção especial.
Com isso, a estrutura turística só obteve melhorias - a cidade estava sendo chamada de Veneza do Sul - As fachadas dos edifícios do centro foram restaurados, ofertando a quem navegava por Buenos Aires," de calmas águas e margens larguíssimas", um sentimento de placidez e conforto. O que era desastroso tornou-se refinamento. Atordoados ficariam os inspetores argentinos que desciam o Rio Paraná quando retornassem para a Capital, pois
ao fim de investigações exaustivas, os técnicos chegaram a conclusão estupefata. A Usina de Itaipu, como afirmava roucamente o governo brasileiro, continuava funcionando como sempre. Mas que diabos! De onde, então, vinha aquela água toda?
Teorias brotaram, especulações de improviso para o fenômeno.
Uma equipe de arqueólogos disse até que um túnel secreto, de pretensa origem inca, com mais de quatro mil quilômetros, foi reaberto e estava minando a água dos Andes no subsolo da cidade. Absurdo!
O mistério entreteu muito os cientistas num Congresso a respeito, acorrido no Hotel La Plaza.
Em meio a réplicas e tréplicas, chegou às autoridades científicas a informação que a água de B. Aires tinha-se ido. Os participantes derrubaram as cadeiras, saltando a tribuna e atirando os microfones ao longe.
Ao Vivo, ao vivo: apavorada, a população saiu as ruas, os turistas saíram as ruas, a Guarda Nacional saiu as ruas, lodosas e cheia de peixes surpreendidos.
A água sumira.
Mas mal deu tempo para os gatos voltarem.
Horas depois os argentinos bombardeavam Itaipu.
Tudo isso e outras coisas mais me contou uma senhora portenha bem gasalhada, recostada a eras na sua cadeira de balanço, enquanto comia pêssegos e me apontava uma arma. O bolero de Havel incendiava os alto-falantes da cidade. Na televisão, soldados azuis moviam as pernas como se dançassem o Danúbio Azul, em um dois três, fazendo coreografias alucinantes ...
Poética do pasteleiro
Clóvis é pasteleiro. Os anos passam e sua rotina não muda. Às cinco da matina está, barba rala, olhos vermelhos. Meio sonolento segue até a prateleira. Faz a operação maquinalmente. Três, sete, doze vezes ao dia. Farinha ovos sal fermento. No caos de suas mãos peludas os elementos se ordenam. No instante de se escorrer a água é que a matéria se transforma: o despejo requer paciência e comedimento e intuição. Clóvis é um feiticeiro. Agora sim, vai virando a massa, direita, esquerda - uma grande bola que lembra um mundo - nesse momento poderíamos dizer que Clóvis , Clóvis-Deus, se ilumina - Pagar o carro essa merda que só quebra imbecil Tem - durante a sova Clóvis fica de cabeça baixa - que consertar a porra da descarga Chego cansado e não posso Nem pensar em sair O Arnaldo não sai do meu pé com aquele cacete do cabelo na salada Ele que vá tomar no cu Me esfolo Nem pensar em pescar Caralho de merda - cebola, calabresa, presunto, alho, salsinha, queijo, orégano - Se naquele dia estivesse com a faca Bem que podia dar uma cuspidinha Inferno Sou um maldito mesmo Ela não me ama mais Pensa que me engana com aqueles olhinhos tremelicando E o material escolar Vou mostrar só O tomate tá vermelho como Não não agora não Ah Deus me ajude com esse catupiry...
Clóvis estica, preenche, dobra, prensa. Com muito suor faz os pastéis deliciosos que encontramos em barracas de qualquer feira.
Os pastéis de Clóvis cheiram à exorcismo e coentro fresco.
Posted by: jefferson / 9:00 AM
Posted by: jefferson / 8:21 AM
Posted by: jefferson / 6:59 AM
Friday, February 06, 2004
Nothing to write home about...
Posted by: jefferson / 6:55 AM
Compassos. Na esquina dobrada, numa rua daquela cidade, passava um rapaz com sua flauta mágica. Não era Mozart. Seria um nome ridículo para alguém no seu ofício. Era Ivanhoé. Professor. Sobretudo nas noites frias, as mulheres vazias desejavam o flautear de Ivanhoé, e Ivanhoé, que não era um cara mesquinho, saia, assim, depois do expediente, flauteando pelas ruas do sem-fim. Os mendigos – acordados pelo doce som – logo se punham a bailar, alguns até puxando ratos como parceiros, desenhando cirandas. Após estas algazarras, Ivanhoé recebia uns trocados dos mendigos, uns tapinhas cordiais dos ratos, e se ia embora. Gastava o resto do asfalto até sua casa em serenetas serenas. A chegada em sua cozinha era silenciosa – Guten Abend, Herzlich. – Guten Abend, Ivanhoé, wie geht’s? – Ich bin prima. Iss! – Ele se afastava do aquário com o pote de comida para peixes nas mãos, guardava-o no armário sobre a pia, entre a caixa de gergelim e os enlatados de milho. Pegava em seguida a aveia; na geladeira, o leite. Misturava tudo numa tigela amarela. Á mesa, já sentado, olhando para o vazio num sustenido constante, enquanto escorria um fio de leite do canto de sua boca, Ivanhoé pensava em mim, Amanda.
Sei disso porque eu sou Ivanhoé.
Rápido me acostumei com os estranhos volumes e os pêlos no tórax: resumidamente é como ser seu próprio gato. Aliás, durante semanas e semanas convivi em Ivanhoé. Cada gesto melodioso, cada gosto, cada suspirar e demonstração súbita de ira. Lá estava eu. Cada agenda, lista, cada staccato diante de insignificâncias. Ali eu estava. Na cor das camisas, no jeito de amarrar os cadarços pra trás pra cima volta e puxa. Em cada livro disco e segredo culinário de família. Ivanhoé era um homem perfeito par uma garota de olhos grandes e cabelos pretos como eu. Ele sabia me tocar por dentro como ninguém ousaria.
Mas, dia após dia Ivanhoé autoditava-se mais.
No primeiro daqueles dias, ele acordou com um gosto de mucosa na boca. Foi para o banheiro, trôpego. Mijou fora da privada, tudo bem, não tem problema, é a primeira vez em anos, ponderei ingenuamente. Depois do almoço, jogou os legumes (que nem tocara) dentro do aquário do Herzlich. Levantei de leve os olhos do livro que lia. Ao anoitecer, Ivanhoé abriu uma garrava de Scotch que estava escondida atrás do guarda-roupa e tomou um porre, sentado num canto, vendo seu rosto no espelho.
Desse dia em diante, Ivanhoé começou a fumar e praguejava o dia todo. Ai eu já nem disfarçava o biquinho ao passar pela porta do seu quarto. Rasgou todos os posters do Win Wenders; numa tarde quente queimou todos os seus livros de filosofia. Na época, todos da escola não o suportavam mais. Não telefonava para sua mãe. Pegou o hábito de ir para o cinema quando queria dormir com alguém. De comprar cd’s do Dylan e não ouvi-los. A flauta enferrujava debaixo da cama. Emagreceu. Embarbeceu.
Na ultima lua minguante Ivanhoé comprou uma forte corda, pendurou-a, serrou o pé da cadeira – ele queria aprender a dançar tango – nesse instante, porém, alguém bateu à porta. Seria ela? Com um salto Ivanhoé abriu a porta e lá estava ela. Ele a amava repentinamente. A vadia de olhos pretos e cabelos grandes chamada Amanda.
Ela trazia um macarrão pré-pronto e uma coca para jantarem.
O livro dos mortos
Enquanto o trem partia atrás de si na plataforma, ele desviava os olhos da mulher do outdoor do pequeno de costas grandes e sobremaneira das próprias mãos. O gancho é limpo com esmero.
Sai, atravessa rápido as ruas, cortando pernas e precipitando desencontros. A amorfidade humana estirada na calçada impede-lhe o salto. Obliquo, ele observa os lírios do campo – um aro comprido e fino sobe-lhe o reto, e desce, em etapas, trazendo o crescente fértil. Mais leve, ele passa.
Um acidente.
Gritos, braços que não podem ser contidos, cabeças distorcidas, choro: A Guernica urbana de cada dia. Enfim, a esquina. O que seria dos homens se não fosse a perspectiva das esquinas ... O céu como ponto de fuga universal para os que estão abaixo do Sol. Milagrosamente há o céu. Ele compra mirra, canela e azeite. Na portaria, o irmão morto: relevar, pois relevar é preciso. Seguir pelas canaletas subterrâneas como os outros homens mudos – para longe da cova dos leões, a procura de dentes-de-leão.
Telefonemas ininterruptos, reuniões acaloradas, cifras quilométricas. As costas foram costuradas com tripas, o ventre já está cheio de sândalo agora.
Crianças.
Esposa.
Jantar.
Os cantos vazios do ser:
Os gatos, Íris, o ópio e os potes de barro.
O silêncio é o sal; a solidão, o sudário. Em honra de Anúbis, o cigarro queima. A reza gasta no manipular das contas, murmúrios que caem dos lábios como mangas podres. Veja os pássaros, ele diz para si, veja os pássaros seu burro escroto do caralho
A mulher de costas e com as mãos nos ouvidos prepara o sono.
Forçosamente, ele agacha-se atrás dela e repousa. Ela vira-se, beija. Afasta-se para a beira da cama como um obelisco caído.
Em minutos milhões de patas partem do interior de sua garganta num ritmo vertiginoso – a lacraia nasce intacta e brilha
: chamar-se-á Kabta, Nossa Melhor Parte, a ungida, a imaculadabjeta
N-O-S-S-A-M-E-L-H-O-R-P-A-R-T-E
“Penso em quando isto vai acabar. Do lado oposto desse rio, há aquele homem guardando o ponto mais recuado deles. O rosto, eu não conheço, nunca o vi. Apenas o movimento do cigarro na madrugada, vai e vem. Um acente-apaga indiferente. Que arma ele carrega? Sei que é um como eu, mesmo à distância, tendo esse grande rio congelado nos separando. Será um fuzil PK42, ou um lança granadas daqueles que eles usam contra aviões? Teria pouca utilidade contra um só homem. Uma PK42, ao contrário, seria muito eficiente se fosse usada por um soldado treinado. Já vi matarem centenas numa aldeia, com uma delas. De qualquer forma, sua munição é cara; acho que não entregariam-na para um guarda-fronteira de um fim-de-mundo como este. Como faz frio esta noite, companheiro! – há, há, - também lhe deram algum cobertor imundo fedendo a bosta de vaca?, e o café?, tem o mesmo gosto de merda, como o meu?,
Margô fazia um ótimo café aos domingos, quando voltávamos do parque. As cartas dizem que ... que? disparos ...? O camarada tem alguma pequena?; longe desse lugar deserto cercado de neve, deve haver alguém em quem pensa além de ... é só uma coruja, xô, xô! Diabos, o cigarro da divisão acabou. Está frio, não é mesmo? Estará pensando em dormir depois de ter visto-me sair da casamata,idiota, assustado com uma coruja? Há, há, uma corujinha de nada ... Já está na hora? ainda é cedo... Será do tipo que raciocina, camarada do-outro-lado? È sério ou do tipo que dorme em cima do fuzil e acorda com um tiro nas coxas? Há,há,há, essa do tiro nas coxas foi boa, seria engraçado de se ver -
Agora, depois do cigarro. Isso isso a luz chegando como um vaga-lume do oeste. Eu te invejo, meu camarada, esse cigarro deve estar te fazendo lamber os beiços, a saliva se encorpando ... Eu te mataria por seus cigarros, meu camarada. Esse frio maldito, essa guerra estúpida, a casamata cheirando a urina, a noite que não termina nunca – meses meses sozinho , é isso, te mataria.”
Do lado oposto do rio, o outro soldado acabara de fumar e preparava-se para se deitar numa rede, mas um estrondo vindo da casamata na margem inimiga corta a fronteira e o faz pegar em sua arma.
É um estridente berro de boa noite.
Das Mil e uma noites
Ahafaa, o cavalo
Conta-se que Ahafaa, o Vento leste, a Maravilha negra, a Jóia da Anatólia, de repente adoeceu.
Seu maior admirador, o sultão, procurou os mais doutos nas artes da cura. Xamãs da Mongólia, brâmanes de Bombaim, filosófos persas, cirurgiões tibetanos, ninguém dera resposta às dores do animal até que um garoto das estrebarias ousou - Por que não o soltam? - assim se fez e a comitiva real passou a seguir Ahafaa.
Correram-se areias, neves e línguas sob as estrelas. Comeram-se os camelos em tiras cada vez mais finas - logo os perseguidores venderiam seus anéis para comprar água, trocariam seus brincos por lenha, seus colares por raízes: venderiam até a pele grossa de seus pés. Ahafaa nunca parou.
No fim de um doloroso prado avistaram pela última oportunidade Ahafaa.
Conta-se que abruptamente o cavalo encontrou sal e caiu.
O diário de Sócrates I
Douglas
Durante sete vezes sete anos Douglas trabalhara ali. Durante todo esse tempo nunca conhecera outros domínios que extrapolassem a comarca da sua escrivaninha estéril, com seus planaltos de formulários áridos e desertos de clips. Praticamente apodrecia ali. Sei que parece repugnante a idéia, mas realmente Douglas nasceu ali.
Não. Esta cara de asco de vocês nada me diz - uma pessoa que foi concebida e criada encerrada dentro de um escritório, com certeza é algo absurdo, assim como a decorrente consideração de chamar por Mamãe a um mimeógrafo, mesmo que tal máquina o tenha ninado por tanto tempo com cantigas em duas vias.
No entanto assim foi.
Douglas, crescendo ano após ano, depois envelhecendo, dia após dia, olhava com medo para os vultos que passavam atrás da persiana; as vozes no corredor detrás da porta obrigavam-no a se deitas de bruços em seu catre de rascunhos.
O passar das crises econômicas fez de Douglas um prolongamento da seção, ponderavam os donos que sucessivamente apareciam. Sabem, como uma velha cadeira giratória, uma mesa grande, um balde no armário de vassouras etc, etc, etc.
Bom, como todo bom escravo, Douglas precisava de comida - o que era o desconsolo de todos os seus patrões, mas sobretudo do atual, Augusto.
Assim, então, no meio de cada miserável dia de labuta moura - exatamente no meio - Douglas reclamava por sua marmitex e a recebia com salamaleques faciais que dir-se-ia serem um sorriso.
Durante sete vezes sete anos assim fora.
Mas um dia ( não me lembro bem quando), Douglas esperava aquele momento supremo de gozo ( a hora do rango) e nada aconteceu. havia uma foca. Não, não estou exagerando, absolutamente nem uma mosca se moveu. Se não fosse a desbendita torneira do banheiro a repingar, Douglas acreditaria que o mundo parou de vez. Aqui cabe um pequeno parênteses ( Para alguém que foi enclausurado desde a mais tenra infância, a perspectiva de um Apocalípse é muito atraente, e talvez seja esse pensamento que passe na cabeça de Douglas neste momento, daí o que fará agora). Se preparava para fazer aquilo que todos fazem quando não há ninguém por perto - sim, era uma catota* enorme lhe incomodando por anos! - mas havia a fome, Ó, A Fome!
Desabaladamente, Douglas foi abrir a porta que durante toda sua vida bovina lhe fora negada, abriu e saiu.
Algo de cáustico acariciou-lhe a face.
O Branco.
Não havia nada lá fora. Só. O Branco.
Inexorável. Incorrompível. Um Branco longínquo. Um Branco devasso colado em sua retina.
Um Branco mongólico.
Só.
O.
Bran.
Co.
[Mas havia a fome, Ó, A Fome!]
* Pedra nasal; também na variante catóta.
O diário de Sócrates II
O profeta
É sabida a história do profeta que era capaz de ver o futuro no vôo dos pássaros. Relatos do período nos dizem que o santo-homem percorria as vilas ofertando seu dom ao gentil povo em palavras adocicadas. A um camponês, certa feita, previu a multiplicação da rês, a outro, fartura no rastro do arado. Em Palas, um homem público abordou ao vate, e este, após observar o vôo de um pardal, expôs que em um prazo de dois dias aquele senador receberia dois mil talentos como herança, fato que viria a ocorrer e maravilhar a todos.
Diante disso, as pessoas passaram a procurá-lo, uma turba seguia sua cabeça sempre erguida para o céu. A fama passou a antecedê-lo aonde quer que buscasse parada, o que , todavia, fazia com menor frequência.
Começou a afastar-se dos vilarejos, queria os ermos, cruzando às vezes determinada campina incessantemente, até voltar ao local da partida, dias antes. Abstinha-se já de roupagem e comida. Delirava. Os pés sangravam em gretas e granizos, porém nada o detinha. A multidão de fiéis, acreditando ser isso prova da natureza divina do homem, que provavelmente os levaria a um lugar sagrado, livres da opressão e da dor, deixava-se apenas conduzir. Foi quando, num crepúsculo de outono, avistaram a sombra do profeta se arrastando em direção ao despenhadeiro. Ao despencar o santo nos dentes de pedra do mar, muitos se escandalizaram, e houve gritos de pavor de não se ouvir mais coisa alguma.
Por fim, alguns ainda se atreveriam a tomar-lhe o exemplo, e cairam, relembrando o passo seguro que conduziu o mestre à morte. Mas com o passar dos momentos, a maioria das pessoas não via vantagem no ato e retornava a suas vilas.
Nenhum deles sabia, mas há anos os olhos do homem não viam nada além de fezes de aves.
Sobre o santo-homem, dizem que se chamava Egeu, o Prudente.
O diário de Sócrates III
A cidade
Era uma vez, além do reino não-civilizado do Eldorado, um pouco acima dos portões de Shangri-la, uma cidade encantada chamada Pineapple. "As ruas", como diria um messias recentemente morto por uma esmola, eram "feitas de ouro e os postes de esmeraldas". Havia, naquelas praças, fontes de água mineral e não é de se estranhar que a qualquer hora você pudesse encontrar um famoso curandeiro ou um ex-ditador saindo do Theatro.
Quase não havia miséria por lá.
Os mendigos, ou eram profetas ou cineastas fracassados. Em alguns casos eram os dois. Os coletores de impostos eram esquimós e o próprio prefeito era um guerreiro sumério com várias chacinas nas costas. Garotos pobres montavam bandas de rock e ganhavam rios de dinheiro e filhos para tomá-lo. As prostitutas faziam crediário. Os traficantes vendiam asas de cera em cinco cores e tamanhos diferentes. A cidade respirava magia, o que posso dizer? Todavia, não havia bruxas por lá, só maçãs, doces e vermelhas, doces e quentes, irrompendo debaixo de pontes de cristal ou no alto de edifícios de caramelo. De repente.
E exceto pelo porão dos Smith, não existia maldade por ali.
Ali morava um Demônio.
Ali, e não é de se estranhar de encontrá-lo ali, vivia Al-terror, e Ali-babava na escuridão.
No Dia-da-Grande-Forca (feriado nacional) os Smith recebiam um grande coala recheado. Orava-se pela saúde do rei, para que as crianças fossem para a cama no horário, para que os aviões não parassem de ser fabricados, para que os visigodos não ultrapassassem as fronteiras. E principalmente, meu Deus, que aquele som vindo da T.V. não passasse de um fusível, só um fusível. Amém.
No dia seguinte a mãe jogava os restos no porão para que o Demônio (que fazia as crianças tremerem e irem para a cama) desputasse os ossos com alguns niños que lavavam os pratos, depois ela ligava sua abóbora conversível e ia trabalhar no Consulado das fadas. Sim, lá as mulheres trabalhavam fora, ainda por cima.
Posted by: jefferson / 7:48 AM
O diário de Sócrates IV
Pedro e a Lâmpada
Numa daquelas esquinas da Doutor Arnaldo, debaixo do outdoor da Renoult, vive Pedro.
Pedro costuma sonhar com um pescador de peixes-espadas de aço e barbatanas de alumínio brilhante. Relusente. Não adianta nem dizer, para Pedro, Hemingway é uma marca de maionese, ele não sabe sonhar, tadinho, mas depois de fazê-lo ele então acorda devagarinho com os olhos cheios d'água - O CO2 desvirgina cedo a aurora - e sorri.
* * *
Às quintas e domingos pela manhã, podemos encontrar Pedro atrás da Casa Brasil, raspando o fundo de um tonel de lixo com uma espátula cuidadosamente improvisada. Os cães já sabem quando o vêem de olhos claros mastigando alguma cartilagem: é natal para Pedro. - Hí, Hí, Hí, Ananias... - ( era Pedro rindo do faxineiro do restaurante, Ananias, chegando tarde como sempre).
Feliz, entretanto, está Pedro quando passa a noite se contorcendo no caixote podre, se revirando de gozo e aflição, girando, como a abóboda celeste sobre a sua cabeça negra. No estômago sem estrelas de Pedro só existem unhas postiças que estavam na poça fétida onde bebera. Lindas lascas vermelhas estralando no fundo preto de Pedro - e ele sorri ( como sempre ).
Misteriosamente, certo dia Pedro parou de assoviar com os lábios rachados a melodia que ele não sabia mas era satisfaction. Cotucou o cucuruco quando terminou de vasculhar o lixo do casarão. Apesar da madrugada, certamente era uma bela lâmpada mágica ali. Ninguém. Não sabemos direito como foi parar lá, mas havia lençois limpos, água quente, mulheres, mulheres que tomavam banho e faziam café-da-manhã. Manhã. Seus olhos rodavam nas orbitas por toda a superfície dourada angustiosamente. Relusente. Segurava-o.
( Horas mais tarde, e o homem semidesperto do Ferro-velho mal podia acreditar que houvesse coisa tão bela no mundo, Pedro chupava o maior sorvete de morango que podia caber num pote de margarina.)
Só era segunda-feira e tinha que se-virar com aquilo até a próxima quinta.
A água
Sou jornalista. Mas até onde ela me contou, tudo que sei é que isto começou com o insólito caso dos gatos. É provável que mesmo depois de relatada a questão, não fique claro o motivo que levaram-nos a sumir da cidade. Como uma inversão na ordem natural das coisa, do dia para a noite, todos fugiram.
Só então os ratos apareceram.
Milhares.
Uma cascata inquieta deles atropelou os aposentados nas calçadas, saindo dos becos, dos bueiros, latrinas e sacos de aniagem, ninhadas inteiras saquearam as ruas.
Seguiam para o poente, não sei aonde. Chile, talvez.
Corriam, e isso eu sei, de uma ligeira, tenuíssima película de água de vagar devagar que avançava, tomando as primeiras ruelas,
sutilmente.
* * *
O estranho episódio da água que começava a sitiar os Distritos foi deixando a população irritadiça no inicio. Quando a correnteza demonstrou ser capaz de arrastar carros e mendigos e cães, os cafés franceses na Rua J. L. Borges já se encontravam falidos. Subitamente todos entenderam que algo terrível estava pra acontecer (argentinos ... os cafés chiques precisam falir para eles se preocuparem de verdade). Alguns bairros de Buenos Aires, pois não se tratava de outra cidade, ficaram totalmente ilhados deste então. Não se podia sair para trabalhar, as crianças não iam para as escolas. Faltava comida e água potável para os mais carentes. A caudalosa água negra condenou os munícipes à reclusão. Não preciso mencionar a repercussão desses fatos mundo afora. Comunidades estrangeiras faziam campanhas para a doação de roupas aos flagelados argentinos. A ONU prometeu ajuda imediata, os EUA especialmente. No Uruguai, o cantor Sting fez um show com alguns grupos latinos, inclusive brasileiros, em prol dos milhares de desabitados. Nunca se ouviu tantos cds de tango no mundo, especialmente Piazzolla.
O planeta se sensibizava enquanto o caos rondava as ruas da cidade. Histeria geral. Pestes. Semanas e semanas de prisão em família fizeram os casos de suicídios aumentarem.
A anarquia abria franquias.
* * *
Uma das primeiras providencias do Presidente argentino foi nomear um Ministério Extraordinário, cuja meta era descobrir um culpado para o desastre.
Da cabine de alguma rádio sensacionalista, das muitas que infectavam a cidade, saiu uma das prováveis explicações para a água que irrompera em B. Aires. O locutor dizia que " Num ato terrorista, o governo brasileiro decidiu destruir a hidroelétrica de Itaipu, a maior do mundo, e desta forma desestabilizar o Estado Soberano Argentino com a submissão de sua Capital ". O radialista ainda falou sobre uma possível cumplicidade do governo paraguaio, não obstante as perdas ao território deste pais causadas pelo fenômeno agora chamado pela mídia de Alagacion.
Diante de tais anúncios, a violência, é óbvio, explodiu.
Tropas foram mobilizadas para a divisa com o Brasil. Na cidade também houve tensão: a pilhagem com o uso de botes improvisados era comum. Invasões, arrombamentos. Retirantes mais afortunados invadiam as cidades fronteiriças, para fora do Alagacion. E o que, afinal, era esse (essa) Alagacion? Místicos falavam que provinha da Era de Peixes, religiosos proclamavam a não original teoria do Dia-do-Juizo. Os ecologistas usavam o desastre para suas campanhas pelo globo. O Green Peace invadiu uma refinaria de petr]oleo no Alasca usando-o como justificativa. Mas voltemos à cidade, já que a desordem generalizada chegava ao ápice: um turista português era linchado, por engano. As coisas não podiam continuar assim, No more No more. Os EUA insinuavam uma possível intervenção no local. Muitos mortos apareciam na t.v.
Por capricho, o destino quis que justamente outro português, por este haver escrito um livro acerca de uma tragédia natural inusitada, que este homem, dizia eu, fosse indicado O Conselheiro da cidade. O escritor comunicou oficialmente não entender o pedido, sendo ele apenas um ficcionista, nada podia fazer contra o Alagacion, função que, dizia o lusitano, cabia ao povo e aos especialistas, geólogos, climatólogos, etc, etc.
Pressões por parte do governo argentino conquistaram o direito a uma expedição de inspetores do Ministério de Defesa ao território paraguaio e brasileiro, seguindo num barco de pesquisa o curso do rio Paraguai até o final, onde estaria a Represa. Concomitantente, o prefeito de Buenos Aires começava as obras de adaptação da cidade ao desastre.
Finalmente a ajuda das Nações Unidas chegou a Buenos Aires depois da assinatura da promissória, no último abril, em Washington.
* * *
Comoção, um empenho extraordinário, e em cinco meses a comunidade internacional olhava boquiaberta a nova B. Aires. Um descomunal - mais impressionante que a palavra - sistema de canais navegáveis foi erigido, seguindo o curso das ruas e avenidas submersas. Diques construídos para atenuar a corrente eram vistos do Porto. A arquitetura da cidade alterou-se, prédios históricos receberam atenção especial.
Com isso, a estrutura turística só obteve melhorias - a cidade estava sendo chamada de Veneza do Sul - As fachadas dos edifícios do centro foram restaurados, ofertando a quem navegava por Buenos Aires," de calmas águas e margens larguíssimas", um sentimento de placidez e conforto. O que era desastroso tornou-se refinamento. Atordoados ficariam os inspetores argentinos que desciam o Rio Paraná quando retornassem para a Capital, pois
ao fim de investigações exaustivas, os técnicos chegaram a conclusão estupefata. A Usina de Itaipu, como afirmava roucamente o governo brasileiro, continuava funcionando como sempre. Mas que diabos! De onde, então, vinha aquela água toda?
Teorias brotaram, especulações de improviso para o fenômeno.
Uma equipe de arqueólogos disse até que um túnel secreto, de pretensa origem inca, com mais de quatro mil quilômetros, foi reaberto e estava minando a água dos Andes no subsolo da cidade. Absurdo!
O mistério entreteu muito os cientistas num Congresso a respeito, acorrido no Hotel La Plaza.
Em meio a réplicas e tréplicas, chegou às autoridades científicas a informação que a água de B. Aires tinha-se ido. Os participantes derrubaram as cadeiras, saltando a tribuna e atirando os microfones ao longe.
Ao Vivo, ao vivo: apavorada, a população saiu as ruas, os turistas saíram as ruas, a Guarda Nacional saiu as ruas, lodosas e cheia de peixes surpreendidos.
A água sumira.
Mas mal deu tempo para os gatos voltarem.
Horas depois os argentinos bombardeavam Itaipu.
Tudo isso e outras coisas mais me contou uma senhora portenha bem gasalhada, recostada a eras na sua cadeira de balanço, enquanto comia pêssegos e me apontava uma arma. O bolero de Havel incendiava os alto-falantes da cidade. Na televisão, soldados azuis moviam as pernas como se dançassem o Danúbio Azul, em um dois três, fazendo coreografias alucinantes ...
Poética do pasteleiro
Clóvis é pasteleiro. Os anos passam e sua rotina não muda. Às cinco da matina está, barba rala, olhos vermelhos. Meio sonolento segue até a prateleira. Faz a operação maquinalmente. Três, sete, doze vezes ao dia. Farinha ovos sal fermento. No caos de suas mãos peludas os elementos se ordenam. No instante de se escorrer a água é que a matéria se transforma: o despejo requer paciência e comedimento e intuição. Clóvis é um feiticeiro. Agora sim, vai virando a massa, direita, esquerda - uma grande bola que lembra um mundo - nesse momento poderíamos dizer que Clóvis , Clóvis-Deus, se ilumina - Pagar o carro essa merda que só quebra imbecil Tem - durante a sova Clóvis fica de cabeça baixa - que consertar a porra da descarga Chego cansado e não posso Nem pensar em sair O Arnaldo não sai do meu pé com aquele cacete do cabelo na salada Ele que vá tomar no cu Me esfolo Nem pensar em pescar Caralho de merda - cebola, calabresa, presunto, alho, salsinha, queijo, orégano - Se naquele dia estivesse com a faca Bem que podia dar uma cuspidinha Inferno Sou um maldito mesmo Ela não me ama mais Pensa que me engana com aqueles olhinhos tremelicando E o material escolar Vou mostrar só O tomate tá vermelho como Não não agora não Ah Deus me ajude com esse catupiry...
Clóvis estica, preenche, dobra, prensa. Com muito suor faz os pastéis deliciosos que encontramos em barracas de qualquer feira.
Os pastéis de Clóvis cheiram à exorcismo e coentro fresco.
Posted by: jefferson / 9:00 AM
Posted by: jefferson / 8:21 AM
Posted by: jefferson / 6:59 AM
Friday, February 06, 2004
Nothing to write home about...
Posted by: jefferson / 6:55 AM