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7.27.2005
Gerson , meu amigo filósofo
Esperava por Gerson, que estava no banheiro. Observando seu quarto rigorosamente organizado – que é a imagem aproximada que eu tinha do lugar antes de tê-lo visto – penso no caráter resoluto de Gerson, sempre cético, sempre amargo, um soco na cara da vida, escarrando nas bocas que se atrevem a uma palavra de ordem. Gerson, filósofo, bom amigo. As paredes, cheias de volumes. Quantos? Impossível saber. Tamanho é o acervo que a regularidade dos livros grandes entre os livros pequenos e médios, alguns mais grossos do que outros, funciona como uma mandala, embaralhando a visão, distraindo a mente mais vigorosa – e é necessário recomeçar a contar. É um conhecimento insondável. Porém acredito que Gerson, se não os conhece a fundo, certamente já lastreou-lhes com exatidão o conteúdo. Um dos cadernos em meio àquele mar de tomos chamou minha atenção por seu aspecto de constante manuseio. Tirei-o da estante e o abri, apenas para saciar a curiosidade superficialmente. Um som surdo vindo do banheiro apressou-me. Era um mapa do centro da cidade, coberto, aqui e ali, com círculos vermelhos e negros (ouvi o ruído do trinco e coloquei o mapa de volta).
- Pensei que tinha morrido ai dentro, disse quando o vi sair, secando as mãos na camisa.
- Você é um otimista, A..
Á noite fomos à choperia do Clóvis. Gerson estava realmente muito animado naquela noite.
O Clube
Nos encontrávamos – e parece ridículo sequer iniciar o relato de outra forma – no Átila. Um grupo muito heterogêneo; em comum, uma tendência contestatória e a pretensão intelectual que se manifesta em jovens que cresceram lendo sobre Che Guevara ao som de The Doors. Freqüentemente virávamos a noite em discussões, na maioria das vezes inúteis, sobre qualquer assunto que fosse jogado sobre a mesa – sadomasoquismo, Salvador Dali, a importância dos seriados japoneses na geração de 80, canibalismo cultural: tudo, menos política; sobre política havia consenso sempre – até o instante em que o Eli se levantava, balançando uma garrafa vazia e gritando Consumatum est!, Consumatum est! e o dono do bar trazia a conta. Bons tempos.
Numa noite Cecéu, Cláudio e Pifa chegaram juntos. Sentaram-se, olhares cruzados, sorrisinhos nervosos. Disseram ter uma idéia: formar um clube. Um clube pra quê? Pra dar voz aos nossos trabalhos, por exemplo; pra conseguir maior visibilidade … Concordei. Afinal, a perspectiva de ver todo o nosso conjunto de contos, poemas e viagens lisérgicas reunidas parecia interessante. Na noite seguinte, Cecéu trouxe um pedaço de papel. Que diabo é isso, Cecéu? Era o slogan do clube, o triplo C ( céticos, cínicos e cafajestes ) nos moldes de uma insígnia. Nas semanas seguintes foram as camisetas, as carteirinhas o manual … Continuei freqüentando o bar o suficiente – isto foi em março ou abril – para ser abordado por Cecéu. –Olha, mostrei seu material para um editor, nada grande, a casa é pequena, esta começando agora, e ele achou que se você escrevesse uns lances mais provocantes … - Do tipo?, cortei impaciente –Sei lá, pedofilia, se bem trabalhada – claro, nada explícito, Oh! – na poesia fica legal, como aquele verso:
“ … Sua boquita é um botão
em metro e meio de canteiro”
público para isto se tem e, em todo o caso, vai fazer um puta barulho … escuta, o editor é conhecido do Gerson; disse que só vai investir se tiver possibilidade de retorno …
Me afastei sem deixá-lo concluir, ouvindo, num canto, Pifa orientar o Manuel sobre uma nova proposta:
“… um cara que dá um cheiro vai se identificar, é trazer à tona e esfregar na cara das pessoas o que se faz nos porões do ser humano, no submundo – algumas pessoas gostam de ser esbofeteadas, cara: ou se choca ou se excita …”
Esperava por Gerson, que estava no banheiro. Observando seu quarto rigorosamente organizado – que é a imagem aproximada que eu tinha do lugar antes de tê-lo visto – penso no caráter resoluto de Gerson, sempre cético, sempre amargo, um soco na cara da vida, escarrando nas bocas que se atrevem a uma palavra de ordem. Gerson, filósofo, bom amigo. As paredes, cheias de volumes. Quantos? Impossível saber. Tamanho é o acervo que a regularidade dos livros grandes entre os livros pequenos e médios, alguns mais grossos do que outros, funciona como uma mandala, embaralhando a visão, distraindo a mente mais vigorosa – e é necessário recomeçar a contar. É um conhecimento insondável. Porém acredito que Gerson, se não os conhece a fundo, certamente já lastreou-lhes com exatidão o conteúdo. Um dos cadernos em meio àquele mar de tomos chamou minha atenção por seu aspecto de constante manuseio. Tirei-o da estante e o abri, apenas para saciar a curiosidade superficialmente. Um som surdo vindo do banheiro apressou-me. Era um mapa do centro da cidade, coberto, aqui e ali, com círculos vermelhos e negros (ouvi o ruído do trinco e coloquei o mapa de volta).
- Pensei que tinha morrido ai dentro, disse quando o vi sair, secando as mãos na camisa.
- Você é um otimista, A..
Á noite fomos à choperia do Clóvis. Gerson estava realmente muito animado naquela noite.
O Clube
Nos encontrávamos – e parece ridículo sequer iniciar o relato de outra forma – no Átila. Um grupo muito heterogêneo; em comum, uma tendência contestatória e a pretensão intelectual que se manifesta em jovens que cresceram lendo sobre Che Guevara ao som de The Doors. Freqüentemente virávamos a noite em discussões, na maioria das vezes inúteis, sobre qualquer assunto que fosse jogado sobre a mesa – sadomasoquismo, Salvador Dali, a importância dos seriados japoneses na geração de 80, canibalismo cultural: tudo, menos política; sobre política havia consenso sempre – até o instante em que o Eli se levantava, balançando uma garrafa vazia e gritando Consumatum est!, Consumatum est! e o dono do bar trazia a conta. Bons tempos.
Numa noite Cecéu, Cláudio e Pifa chegaram juntos. Sentaram-se, olhares cruzados, sorrisinhos nervosos. Disseram ter uma idéia: formar um clube. Um clube pra quê? Pra dar voz aos nossos trabalhos, por exemplo; pra conseguir maior visibilidade … Concordei. Afinal, a perspectiva de ver todo o nosso conjunto de contos, poemas e viagens lisérgicas reunidas parecia interessante. Na noite seguinte, Cecéu trouxe um pedaço de papel. Que diabo é isso, Cecéu? Era o slogan do clube, o triplo C ( céticos, cínicos e cafajestes ) nos moldes de uma insígnia. Nas semanas seguintes foram as camisetas, as carteirinhas o manual … Continuei freqüentando o bar o suficiente – isto foi em março ou abril – para ser abordado por Cecéu. –Olha, mostrei seu material para um editor, nada grande, a casa é pequena, esta começando agora, e ele achou que se você escrevesse uns lances mais provocantes … - Do tipo?, cortei impaciente –Sei lá, pedofilia, se bem trabalhada – claro, nada explícito, Oh! – na poesia fica legal, como aquele verso:
“ … Sua boquita é um botão
em metro e meio de canteiro”
público para isto se tem e, em todo o caso, vai fazer um puta barulho … escuta, o editor é conhecido do Gerson; disse que só vai investir se tiver possibilidade de retorno …
Me afastei sem deixá-lo concluir, ouvindo, num canto, Pifa orientar o Manuel sobre uma nova proposta:
“… um cara que dá um cheiro vai se identificar, é trazer à tona e esfregar na cara das pessoas o que se faz nos porões do ser humano, no submundo – algumas pessoas gostam de ser esbofeteadas, cara: ou se choca ou se excita …”