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2.27.2004

WORK SONGS


Quatro cantos de forja

Eu cheiro a metal de chama
Deitado por alicate
No chiar que a água mela
Enrigesse e da coragem.

Ao toque torna a bigorna
O incerto em forma latente
Que ferro tanto transforma
Que talho torna-se ente.

Da cunha o fio de corte
Não suscita não aflição
A vida tem por sorte
Esmeril como profissão.

O sentir, o saber agir
Faz a beira da amoladeira
Tua lâmina corrigir
O nó de qualquer madeira.


Lições para queimar

A mó'de fazer fogo
Antes inté que tenha flama
Além de lenho novo
Carece-se corísco e palha.

Repara: forre o forno
Primeiro com pequenas falpas
Sem fole como sopro
Foca teu fôlego, repara!

Para chegar a solto
O fogo deve a si domar
O corpo virar toco
O toque labareda dar.

2.19.2004

A água

Até onde se sabe, tudo começou com o insólito caso dos gatos. É provável que mesmo depois de relatada a questão, não fique claro o motivo que levaram-nos a sumir da cidade. Como uma inversão na ordem natural das coisa, do dia para a noite, todos fugiram.
Só então os ratos apareceram.
Milhares.
Uma cascata inquieta deles atropelou os aposentados nas calçadas, saindo dos becos, dos boeiros, latrinas e sacos de aniagem, ninhadas inteiras saquearam as ruas.
Seguiam para o poente, não sei aonde. Chile, talvez.
Corriam, e isso eu sei, de uma ligeira, tenuíssima película de água de vagar devagar que avançava, tomando as primeiras ruelas,
sutilmente.

* * *

O estranho episódio da água que começava a sitiar os Distritos foi deixando a população irritadiça no inicio. Quando a correnteza demonstrou ser capaz de arrastar carros e mendigos e cães, os cafés franceses na Rua J. L. Borges já se encontravam falidos. Subitamente todos entenderam que algo terrível estava pra acontecer (argentinos ... os cafés chiques precisam falir para eles se preocuparem de verdade). Alguns bairros de Buenos aires, pois não se tratava de outra cidade, ficaram totalmente ilhados deste então. Não se podia sair para trabalhar, as crianças não iam para as escolas. Faltava comida e água potável para os mais carentes. A caudalosa água negra condenou os munícipes à reclusão. No Uruguai, o cantor Sting fez um show com alguns grupos latinos, inclusive brasileiros, em prol dos milhares de desabitados. Nunca se ouviu tantos cds de tango no mundo, especialmente Piazzolla.
Não preciso mencionar a repercussão desses fatos mundo afora. Comunidades estrangeiras faziam campanhas para a doação de roupas aos flagelados argentinos, e como consequência dessa mobilização popular nos quatros cantos, os Estados Nacionais resolveram agir.
A ONU prometeu ajuda imediata, os EUA especialmente. O planeta se sensibilisou, o caos já se manifestava. Histeria geral. Pestes.
Semanas e semanas de prisão em familia fizeram os casos de suicídios aumentarem.
A anarquia abria franquias.

* * *

Uma das primeiras providencias do Presidente argentino foi nomear um Ministério Extraordinário, cuja meta era descobrir um culpado para o desastre.
Da cabine de alguma rádio sensacionalista, das muitas que infectavam a cidade, saiu uma das prováveis explicações para a água que irrompera em B. Aires. O locutor dizia que " Num ato terrorista, o governo brasileiro decidiu destruir a hidroelétrica de Itaipu, a maior do mundo, e desta forma desestabilisar o Estado Soberano Argentino com a submissão de sua Capital ". O radialista ainda falou sobre uma possível cumplicidade do governo paraguaio, não obstante as perdas ao território deste pais causadas pelo fenômeno agora chamado pela mídia de Alagacion.
Diante de tais anuncios, a violência, é óbvio, explodiu.
Tropas foram mobilizadas para a divisa com o Brasil. Na cidade também houve tensão: a pilhagem com o uso de botes improvisados era comum. Invasões, arrombamentos. Retirantes mais afortunados invadiam as cidades fronteiriças, para fora do Alagacion.E o que, afinal, era esse (essa) Alagacion? Místicos falavam que provinha da Era de Peixes, religiosos proclamavam a não original teoria do Dia-do-Juizo. Os ecologistas usavam o desastre para suas campanhas pelo globo, o Green Peace envadiu uma refinaria no Alasca. Mas voltemos à cidade, já que a desordem generalizada chegava ao ápice: um turista português era linchado, por engano: maldita lingua. As coisas não podiam continuar assim, No more No more. Os EUA ensinuavam uma possível intervenção no local. Muitos mortos apareciam na t.v.
Por capricho, o destino quis que justamente outro português, por este haver escrito um livro acerca de uma tragédia natural inusitada, que este homem, dizia eu, fosse indicado O Conselheiro da cidade. O escritor comunicou oficialmente não entender o pedido, sendo ele apenas um ficcionista, nada podia fazer contra o Alagacion, função que, dizia o lusitano, cabia ao povo e aos especialistas, geólogos, climatólogos, etc, etc.
Pressões por parte do governo argentino conquistaram o direito a uma expedição de inspetores do Ministério de Defesa ao território paraguaio e brasileiro, seguindo num barco de pesquisa o curso do rio Paraguai até o final, onde estaria a Represa. Concomitantente a isso, o prefeito de Buenos Aires começava as obras de adaptação da cidade ao desastre.
Finalmente a ajuda das Nações Unidas chegou a Buenos Aires depois da assinatura da promissória, no último abril, em Washington.

* * *

Comoção, um empenho extraondinário, e em cinco meses a comunidade internacional olhava boquiaberta a nova B. Aires. Um descomunal - mais impressionanta que a palavra - sistema de canais navegaveis foi erigido, seguindo o curso das ruas e avenidas submersas. Diques construidos para atenuar a corrente eram vistos do Porto. A arquitetura da cidade alterou-se, prédios históricos receberam atenção especial.
Com isso, a estrutura turística só obteve melhorias - a cidade estava sendo chamada de Veneza do Sul - As fachadas dos edifícios do centro foram restaurados, ofertando a quem navegava por Buenos aires," de calmas águas e margens larguíssimas", um sentimento de placidez e conforto. O que era desastroso tornou-se refinamento. Atordoados ficariam os inspetores argentinos que desciam o Rio Paraná quando retornacem para a Capital, pois
ao fim de investigações exaustivas, os técnicos chegaram a conclusão estupefata. A Usina de Itaipu, como afirmava roucamente o governo brasileiro, continuava funcionando como sempre. Mas que diabos!, de onde, então, vinha aquela água toda?
Teorias brotaram, especulações de improviso para o fenômeno.
Uma equipe de arqueólogos disse até que um tunel secreto, de pretensa origem inca, com mais de quatro mil quilômetros, foi reaberto e estava minando a água dos Andes no subsolo da cidade. Absurdo!
O mistério entreteu muito os cientistas num Congresso a respeito, acontecido no Hotel La Plaza.
Em meio a réplicas e tréplicas, chegou às autoridades científicas a informação que a água de B. Aires tinha-se ido. Os participantes derrubaram as caideiras, saltando a tribuna e atirando os mocrofones ao longe.
Ao Vivo, ao vivo: apavorada, a população saiu as ruas, os turistas sairam as ruas, e a Guarda Nacional saiu as ruas, lodosas e cheia de peixes surpreendidos.
A água sumira.
Mal deu tempo para os gatos voltarem.

Horas depois os argentinos bombardeavam Itaipu.

Uma senhora agasalhada, recostada a eras na sua cadeira de balanço, comia pessegos. O bolero de Havel incendiava os autofalantes da cidade. Soldados azuis moviam as pernas como se dançassem o Danúbio Azul, em um dois três, fazendo coreografias.

2.06.2004

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