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5.19.2005
As laranjas
Não era tempo de laranjas; dentre outras coisas nunca me esquecerei desta. O sumo azedo gotejando de minha boca, uma fragrância de desolação e o Pai com a face de aço, sobranceiro. Na superfície aparentemente pacífica daquele dia, vêem-me à mente as cascas daquela laranja ao lado da mulher nua mostrando aquilo que eu não queria ver. Eram, para minha surpresa juvenil!, incrivelmente grossas, uma sucessão de arredondamentos, calosidades, inchações – daí o motivo do ingênuo encantamento quando me foi revelado seu interior. Era de inigualável beleza, de uma cor delicada como a carne de um peixe. Uma vez ouvi um dos sábios que moram no buraco no chão narrar a fábula do caranguejo. Dizia ele, que em um braço de rio vivia , em meio a lama densa, uma comunidade de caranguejos. Lá nasceu Nescarin, pequeno e alegre. Mas chegou o mês da seca e vários caranguejos morreram. Para que seus parentes não fossem vítimas, Nescarin começou a arrancar com suas diminutas quelas pequenas partes de seu corpo, ao escondido do resto da colônia. Mas Nescarin percebeu que todo o grupo morreria em breve, por isso passou a distribuir pedaços de seu ventre também para os outros, pedaços cada vez maiores. Ainda pode-se encontrar a casca oca de Nescarin na borda do mangue. Quem chegar mais perto notará dois olhos de cerâmica observando o céu. Os sábios sempre se espantam quando ouvem o final da estória; dizem que a verdade esta alí, no miolo das coisas– a laranja ainda está verde. Ele fez que sim e não me ouviu. Disse que já era época, que não queria que todo mundo dissesse, que me criou para ser homem no mundo. Pai, o que é o mundo? – O mundo é uma laranja, disse com os olhos de ferro sobre mim, que a gente tem que descascar a unha.
Logo acima de meus ouvidos ouço vozes distantes chamarem, mas não é meu nome, é o nome de Nescarin, que querem convercer-me de ser o meu, para que, assim, eu saia do buraco e eles arranquem meu ventre. Aqui nas profundezas sinto o chão, a água é molhada e fria.
Acho que vou meter-me no meio das pedras e esperar que essas sementes germinem.
Não era tempo de laranjas; dentre outras coisas nunca me esquecerei desta. O sumo azedo gotejando de minha boca, uma fragrância de desolação e o Pai com a face de aço, sobranceiro. Na superfície aparentemente pacífica daquele dia, vêem-me à mente as cascas daquela laranja ao lado da mulher nua mostrando aquilo que eu não queria ver. Eram, para minha surpresa juvenil!, incrivelmente grossas, uma sucessão de arredondamentos, calosidades, inchações – daí o motivo do ingênuo encantamento quando me foi revelado seu interior. Era de inigualável beleza, de uma cor delicada como a carne de um peixe. Uma vez ouvi um dos sábios que moram no buraco no chão narrar a fábula do caranguejo. Dizia ele, que em um braço de rio vivia , em meio a lama densa, uma comunidade de caranguejos. Lá nasceu Nescarin, pequeno e alegre. Mas chegou o mês da seca e vários caranguejos morreram. Para que seus parentes não fossem vítimas, Nescarin começou a arrancar com suas diminutas quelas pequenas partes de seu corpo, ao escondido do resto da colônia. Mas Nescarin percebeu que todo o grupo morreria em breve, por isso passou a distribuir pedaços de seu ventre também para os outros, pedaços cada vez maiores. Ainda pode-se encontrar a casca oca de Nescarin na borda do mangue. Quem chegar mais perto notará dois olhos de cerâmica observando o céu. Os sábios sempre se espantam quando ouvem o final da estória; dizem que a verdade esta alí, no miolo das coisas– a laranja ainda está verde. Ele fez que sim e não me ouviu. Disse que já era época, que não queria que todo mundo dissesse, que me criou para ser homem no mundo. Pai, o que é o mundo? – O mundo é uma laranja, disse com os olhos de ferro sobre mim, que a gente tem que descascar a unha.
Logo acima de meus ouvidos ouço vozes distantes chamarem, mas não é meu nome, é o nome de Nescarin, que querem convercer-me de ser o meu, para que, assim, eu saia do buraco e eles arranquem meu ventre. Aqui nas profundezas sinto o chão, a água é molhada e fria.
Acho que vou meter-me no meio das pedras e esperar que essas sementes germinem.
5.06.2005
o homem com o buraco na cabeça
O homem com o buraco na cabeça
O homem com o buraco na cabeça levantou-se e foi até o pequeno quarto ao lado. Acendeu a luz e caminhou até uma pilha de caixas grandes de papelão que estava num canto. Tirou a que estava no topo, depois outra, e outra – Durante o processo de retirar as caixas de um lugar e recoloca-las adiante, começa a ouvir alguns sons abafados, que progressivamente ficam mais nítidos. Na última caixa o homem se detem. Abre-a. Encontra dentro dela sete criaturinhas insignificantes; suas grandes cabeças saltam para fora em alvoroço com a aproximação do homem. Ele pega uma delas, apesar da simpatia que nutre por seus enormes olhos expressivos – pode-se dizer que não a maior , a mais bela ou a que mais se movimenta – vira-se, vai até a janela e joga-a para fora. Depois retorna a caixa aberta, fecha-a cuidadosamente para não ferir o pescoço dos seres que insistem em querer sair. Recoloca as outras caixas em cima desta, apaga a luz, sai do quarto e volta para a cama.
O homem faz isso durante sete dias.
No dia seguinte ao oitavo, o homem levanta-se com muita irritação – pois o barulho que vem da caixa, mesmo estando esta no cômodo ao lado sobre uma cadeira - incomodara-o durante toda a noite. Uma espécie de gemido ou arranhar contínuo se intensifica enquanto ele derruba ao acaso as caixas superiores. Já ofegante, ele chega a última. Então a abre. Ao se deparar com o que está dentro da caixa, o ruído já é tão intolerável que o obriga a colocar as mãos no pescoço, em busca de mais ar.
Neste momento, o homem abre os olhos e percebe que não toca mais o chão.
Vê ao longe, no cais do porto, vários barcos balançando, de cima ... para baixo.
O homem volta a dormir para na manhã seguinte ...
O homem com o buraco na cabeça levantou-se e foi até o pequeno quarto ao lado. Acendeu a luz e caminhou até uma pilha de caixas grandes de papelão que estava num canto. Tirou a que estava no topo, depois outra, e outra – Durante o processo de retirar as caixas de um lugar e recoloca-las adiante, começa a ouvir alguns sons abafados, que progressivamente ficam mais nítidos. Na última caixa o homem se detem. Abre-a. Encontra dentro dela sete criaturinhas insignificantes; suas grandes cabeças saltam para fora em alvoroço com a aproximação do homem. Ele pega uma delas, apesar da simpatia que nutre por seus enormes olhos expressivos – pode-se dizer que não a maior , a mais bela ou a que mais se movimenta – vira-se, vai até a janela e joga-a para fora. Depois retorna a caixa aberta, fecha-a cuidadosamente para não ferir o pescoço dos seres que insistem em querer sair. Recoloca as outras caixas em cima desta, apaga a luz, sai do quarto e volta para a cama.
O homem faz isso durante sete dias.
No dia seguinte ao oitavo, o homem levanta-se com muita irritação – pois o barulho que vem da caixa, mesmo estando esta no cômodo ao lado sobre uma cadeira - incomodara-o durante toda a noite. Uma espécie de gemido ou arranhar contínuo se intensifica enquanto ele derruba ao acaso as caixas superiores. Já ofegante, ele chega a última. Então a abre. Ao se deparar com o que está dentro da caixa, o ruído já é tão intolerável que o obriga a colocar as mãos no pescoço, em busca de mais ar.
Neste momento, o homem abre os olhos e percebe que não toca mais o chão.
Vê ao longe, no cais do porto, vários barcos balançando, de cima ... para baixo.
O homem volta a dormir para na manhã seguinte ...