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9.27.2004

Alice

Minha mulher é um tesão de simplicidade
Não gargalha alto
Não grita
Nunca reclama da vida.
Tenho numa gaveta todos os seus discos livros e fitas.
Tenho sua vida do início ao fim,
Na cor das suas roupas ao final do dia.

Alice?
Quem a conhece melhor do que eu?
Dizem que finjo e minto
É verdade
Faço versos como quem rouba.

Recolho metáforas do chão sujo
pelas alamedas, terrenos baldios, ruas sem-saída
Onde houver lugar para o pesar e pensamento escuso
ali me verão passar algum dia.

Trafico rimas nos semáforos
E meus dísdicos mais compridos
ofereço como baguete para os mendigos.

O ritmo imponderavelmente ásperos dos meus versos duros
dou pra quem anda de ônibus.

Meus sonetos não são um alento
para as garotas de faces negras, tão redundantes
no centro desta cidade tentacular.

Um verso não serve para nada além de enganar.

II

Minha vida bovina,
o que não seria eu sem ti?

Tua consistência argilosa
aliso aliso, canso, manso e rude aliso
És um enigma que diariamente pratico.
Chego perto; Vês?
- Um espelho: não vejo nada
Parto a mim mesmo numa miríades de nadas
Ao sol, os fragmentos faiscam feito foices
São os fatos, meu deus

Eu não me curvarei jamais!

9.16.2004

Guia prático para o pequeno homem-da-casa

Alguns anos após o divórcio da minha mãe, comecei a considerar-me, se não um perito na identificação de seus pretendentes no meio das pessoas que freqüentam a casa, pelo menos um conhecedor dos artifícios usados por eles no delicado processo de adentrar a nossa família.
A tarefa de ser admitido no lar desse pós-adolescente neurótico que vos fala, pede, obviamente, o empenho do pretendente. Desde já o chamaremos de Pretendente Padrão.
O primeiro ato dele será parecer descente aos olhos dos familiares da pretendida.
Então, num belo domingo você, caro leitor modelo que vivencia esta realidade, Pa!, abre a porta e dá de fuças com um sujeitinho vestido-se com pretensão. Ele lhe oferta um sorriso simpático, como um buquê de margaridas. Este é o ponto. A partir daqui tudo será decidido na relação entre vocês: aceitar ou não as margaridas de plástico. Parece fácil ser doce com esta pobre criatura. Mas não o é. Acreditem, com o passar dos dias as flores – já na cozinha – começam a feder. E você ali. O cheiro podre dominando suas narinas. Amarelo intenso : boquiaberto. Você ali mal contendo os enjôos. O mal-estar aumentando. Os espasmos mostram que você esta ali: flores mortas. É por isso que à porta, no momento decisivo escolho ops como sou desastrado pisar sobre o sorriso do Pretendente Padrão. Esta é uma atitude que, ao menos, pode purificar o ar onde quer que você esteja.
Se ainda assim, e eu sei como os canalhas conseguem ter cara-de-pau, ele, o Pretendente, recolher as flores da bancada a tempo, tal qual um florista que prevê chuva forte, ser paciente é o melhor a fazer.
Nos próximos dias é provável haver uma certa inquietude nos gestos dele – a mão do tamanho do mundo incomodando tanto, no bolso, na mesa, cintura joelho canela ...
Na sutil cerimônia de aproximação entre as figuras masculinas envolvidas, cada passo é incerto. Como na quadrilha. A ponte quebrou! Uh! È mentira! Olha a cobra! Uh! É mentira, Eh! Mariodeandradismos à parte, a tática seguinte do Pretendente será conquistar sua simpatia. Conquistar e dividir.
Há diversos modos de faze-lo. Neste instante me ocorre um: se você gosta de música, e ele sabe tocar algum instrumento ( violão, rabeca, acordeão, serrote, não importa), o Pretendente fará o possível para cativar-lhe através disso. Aconteceu algo parecido comigo. É uma artimanha simples. Se você se interessa por futebol, ele te oferece olha só ingressos para o jogaço do Timão !; se você é ligado em internet, ele, o obtuso, falará horas sobre o assunto, ou, humildemente manifestará sua ignorância dando o espaço que você precisa para demonstrar quanto conhecimento você possui. Ele, o técnico de iluminação, e o palco é todo seu.
Mas é claro que você pode negar qualquer envolvimento com ele, o ignóbil.
No ultimo degrau da escada rumo a captação de sua benevolência, o Pretendente Padrão apela para o discurso direto. Tó, coma um destes queijinhos, tua mãe falou que você gosta tanto ... Ah! Não é brincadeira. É o pateta segurando um prato azul de vidro cheio de polenguinhos ( que em outra situação seriam devorados por você). Ele me lembra um cavaleiro medieval de mãos juntas, ajoelhado diante do trono do pequeno homem-da-casa. – Rex, servvs svo svm, tvam benedictam manvm obsecro.
A velha vassalagem de sempre ...

Jefferson é desempregado ambulante, colecionador de pedra em formato de sapo, viciado desde os treze anos em bruma, escritor de textos friccionais, desviginapto para algos, e de vez em quando escreve aqui.

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