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12.17.2004
Ganhei de meu pai o favor pelas facas.
De minha mãe, o ímpeto de devorar a vida
com espinha e tudo.
Provavelmente herdei de meu bisavô Kasimiro Kruscence o gosto pela pipa da noite.
- Dizem que numa madrugada, ao sair pra capinar batatas ele avistou no céu uma enorme tiara
dominando o céu - de leste a oeste
Era o cometa de Haley.
Desde esse dia o velho começou a manifestar as mariposas.
Tocava de ouvido um instrumento musical
chamado derelin-dlin-dlin
que ardonou de vento
e muniu com cordas de mel.
Só falava o dialeto dos córgos.
Feito felpas, seus cabelos engrongonhavam.
Um dia foi parar no meio do bosque
e ficou por lá
se alimentando de bronhas, de bufa e do couro rinchado dos carrapatos
Coroado indolente com a sua tiara.
Seu desprezo era descomunal.
De minha mãe, o ímpeto de devorar a vida
com espinha e tudo.
Provavelmente herdei de meu bisavô Kasimiro Kruscence o gosto pela pipa da noite.
- Dizem que numa madrugada, ao sair pra capinar batatas ele avistou no céu uma enorme tiara
dominando o céu - de leste a oeste
Era o cometa de Haley.
Desde esse dia o velho começou a manifestar as mariposas.
Tocava de ouvido um instrumento musical
chamado derelin-dlin-dlin
que ardonou de vento
e muniu com cordas de mel.
Só falava o dialeto dos córgos.
Feito felpas, seus cabelos engrongonhavam.
Um dia foi parar no meio do bosque
e ficou por lá
se alimentando de bronhas, de bufa e do couro rinchado dos carrapatos
Coroado indolente com a sua tiara.
Seu desprezo era descomunal.
Itinerário
Embarco movido mais pela necessidade diária
do que pelo desejo de movimento ou comunhão.
Se é que existe um cisco de movimento ou comunhão
no arrastar de botas que herdamos de nossos pais.
Uma senhora me olha com cara de diafrágma.
O homem de braço gordo dorme como um câmbio.
O colega de boca aberta
insinua os leucócitos.
Tento penetrar-lhes o ânimo
descobrir, surpreender - admirar
a faísca
que brilha dentro de nós
e que impede de nos tornarmos ostra.
Mas tanto tento, que atordoado,
sou tropeçado pela aparência das coisas.
Vamos juntos.
Lado a lado por ruas tortuosas.
Muitos são os que entram
porém a saída e uma pra todos.
Pode ir.
Nesses momentos onde a dúvida é pungente
e o em torno parece colaborar à meditação
Vem o sono.
E ironicamente,
antes de adormecer
- a cabeça encostando ao vidro -
pressinto,
e de maneira unívoca,
qual é o sentido primeiro e último da vida.
Para sempre
O itinerário é o da meia-noite.
Em homenagem a Lucio, grande colega, que me incentiva muito.
Embarco movido mais pela necessidade diária
do que pelo desejo de movimento ou comunhão.
Se é que existe um cisco de movimento ou comunhão
no arrastar de botas que herdamos de nossos pais.
Uma senhora me olha com cara de diafrágma.
O homem de braço gordo dorme como um câmbio.
O colega de boca aberta
insinua os leucócitos.
Tento penetrar-lhes o ânimo
descobrir, surpreender - admirar
a faísca
que brilha dentro de nós
e que impede de nos tornarmos ostra.
Mas tanto tento, que atordoado,
sou tropeçado pela aparência das coisas.
Vamos juntos.
Lado a lado por ruas tortuosas.
Muitos são os que entram
porém a saída e uma pra todos.
Pode ir.
Nesses momentos onde a dúvida é pungente
e o em torno parece colaborar à meditação
Vem o sono.
E ironicamente,
antes de adormecer
- a cabeça encostando ao vidro -
pressinto,
e de maneira unívoca,
qual é o sentido primeiro e último da vida.
Para sempre
O itinerário é o da meia-noite.
Em homenagem a Lucio, grande colega, que me incentiva muito.
12.06.2004
Era um tempo insolúvel.
Meses inteiros, saturados de sol, poeira
E a secura que leviava as águas
Fizeram-me pensar no Cariri, Mangue Seco, Carrapatadas
E outras províncias admiravelmente fiéis à Providência
Nesta nação onde a impiedade é esplêndida.
Olhávamos para o céu
Mas o céu nada adivinha.
Foi então que,
em uma tumultuosa madrugada,
Grandes arroubos de nuvens e ventos furiosos
Marcaram brutos o fim da estiada.
E não foram poucos aqueles que se chegaram às janelas,
Pasmos e sonolentos ao chamado do trovão
Para fixar em suas pupilas o átimo das resoluções titânicas do raio.
..........................................................................................................
Como o prenunciar de mais um crepúsculo,
Num outono triste como os demais,
Um sombra tombava trêmula no asfalto
- banida –
vinda daquela velha senhora
atravessando a rua, sozinha.
Quitandas, botecos, mercearias,
O subúrbio ia baixando sua portas
Rendido e cúmplice ao final do dia.
A velha senhora – ainda no meio da pista -
palmilhava a passos de pomba.
Até então não havia percebido
O veículo irascível que vinha
Saído de alguma já escura esquina.
O impacto levantou os pássaros.
Torto, o poste ficou como um estandarte
Aos motoristas bêbados da cidade.
De cima,
a noite vigia as gentes da periferia
caprichosa ...
............................................................................................
Cabelos presos
Olhos cor de carvão
A intervalos, fala.
Imagino que se chame Ana,
Daí a sugestão incontornável à ordinária fruta.
Detrás do balcão, seus modos lânguidos,
O doloroso demorar-se diante do forno e a
inércia desafiante do pão
Operam em mim acabrunhamento tal
Que chego a desejar ardentemente a sublevação das massas
Até sentir que meu peito preconizou um outro,
Até sentir insurgir em meu rosto a mão descontrolada do povo.
Sua moleza, Ana,
Ao lidar com as facas,
me desconsola
- e me atrai.
.....................................................................
poemas despretensiosos desentranhados de O cacto de M.B., A Maquina do Mundo de C.D.A., de uma velhinha que vi de um ponto de ônibus, de uma atendente de lachonete neste sábado, de uma furibunda chuva de verão e de alguns poemas de Lira Paulistana de M.A.
Meses inteiros, saturados de sol, poeira
E a secura que leviava as águas
Fizeram-me pensar no Cariri, Mangue Seco, Carrapatadas
E outras províncias admiravelmente fiéis à Providência
Nesta nação onde a impiedade é esplêndida.
Olhávamos para o céu
Mas o céu nada adivinha.
Foi então que,
em uma tumultuosa madrugada,
Grandes arroubos de nuvens e ventos furiosos
Marcaram brutos o fim da estiada.
E não foram poucos aqueles que se chegaram às janelas,
Pasmos e sonolentos ao chamado do trovão
Para fixar em suas pupilas o átimo das resoluções titânicas do raio.
..........................................................................................................
Como o prenunciar de mais um crepúsculo,
Num outono triste como os demais,
Um sombra tombava trêmula no asfalto
- banida –
vinda daquela velha senhora
atravessando a rua, sozinha.
Quitandas, botecos, mercearias,
O subúrbio ia baixando sua portas
Rendido e cúmplice ao final do dia.
A velha senhora – ainda no meio da pista -
palmilhava a passos de pomba.
Até então não havia percebido
O veículo irascível que vinha
Saído de alguma já escura esquina.
O impacto levantou os pássaros.
Torto, o poste ficou como um estandarte
Aos motoristas bêbados da cidade.
De cima,
a noite vigia as gentes da periferia
caprichosa ...
............................................................................................
Cabelos presos
Olhos cor de carvão
A intervalos, fala.
Imagino que se chame Ana,
Daí a sugestão incontornável à ordinária fruta.
Detrás do balcão, seus modos lânguidos,
O doloroso demorar-se diante do forno e a
inércia desafiante do pão
Operam em mim acabrunhamento tal
Que chego a desejar ardentemente a sublevação das massas
Até sentir que meu peito preconizou um outro,
Até sentir insurgir em meu rosto a mão descontrolada do povo.
Sua moleza, Ana,
Ao lidar com as facas,
me desconsola
- e me atrai.
.....................................................................
poemas despretensiosos desentranhados de O cacto de M.B., A Maquina do Mundo de C.D.A., de uma velhinha que vi de um ponto de ônibus, de uma atendente de lachonete neste sábado, de uma furibunda chuva de verão e de alguns poemas de Lira Paulistana de M.A.