Links
Archives
public blog
6.16.2005
A mulher que buscava Algo com a ponta do dedo.
A insaciável, depois de procurar no alto dos montes, em imagens sem rosto e no fundo de poços abandonados, passou a ir de beco em beco, aguardando ansiosamente a revelação de uma fresta num canto, a simetria em uma mancha na parede ou redemoinho de pó. Deteu-se a decifrar as vigas subterrâneas da vida.
O contato com restos de comida e plásticos das sarjetas tornou-a mais desperta ao mundo sensível – mas o que ela buscava encontrava-se além do lodo no qual se punha a questionar o reflexo do céu – fazendo com que todo a relação direta com a realidade se tornasse intolerável. Assim, uma simples pedrinha hachurada era indício de um rio antepassado e uma clareira; uma ponta de lápis, uma semente perdida no interior da terra e do tronco que se transforma em pedra, em cadeias de referência que se desdobravam ao infinito.
Viveu desta forma por muitos anos, apreendendo o mundo através do conhecimento pleno dos signos, sem, contudo, encontrar nada, nem sequer uma trilha absoluta, uma pegada inequívoca. Nada.
No fim da vida teve um colapso nervoso; caiu de cama. O trato diário fazia-a encostar muito em si mesma. Nunca imaginou tantas certezas concretas ali. Com a ponta do dedo se perscrutava longamente, cada orifício e articulação. Em meio às dobras de seu corpo, ela encontrava, enfim, uma pequena centelha de satisfação. Uma satisfação morna como uma toca.
Nesses primeiros meses, ela-coelho levantava-se cedo, caminhava até a mesa e, ainda trêmula, escrevia suas úmidas visões. Ela, a louca.
A caixa
Encontrei-a aqui, em frente à escada. Abria-a. A princípio não consegui identificar seu conteúdo, somente após a expectativa e o impacto decorrente – somente neste momento em branco no tempo – as formas e as cores foram se delineando em minha vista. O receio ou aquele sentimentozinho que antecede o despir-se diante do espelho forçou-me a levantar e olhar distanciado para o que estava na caixa. Em primeiro plano, canetas (de várias cores, tamanhos e marcas, dentre as quais uma falsificação de mont blanc igual a que eu possui), uma caixa velha de grampos, ou seja, objetos de escritório, de algum escritório da redondeza prestes a fechar. Porém esta impressão era equivocada, pois em seguida, colados a um dos lados internos da caixa vi – ou pensei ter visto – cartões-de-natal parecidos com aqueles que compramos apressados na véspera do Natal. Um pequeno troféu aparecia por baixo de um guia de turismo e mais embaixo, no fundo da caixa, entrevia um pedaço de cartolina suja (acho que era a outra ponta da caixinha de grampos). Havia muitas outras coisas ali dentro, mas agora a única que parece ser digna de nota é o calendário antigo. Torci o pescoço e olhei a data marcada na folhinha: 14 de Maio de 1979. Foi exatamente nesta data que ... ainda não encontrei um nexo entre estas coisas – tanto delas entre si como de seu conteúdo com um possível acontecimento. Mil sugestões percorrem minha mente, saindo de diversos pontos, indo a lugares improváveis – às vezes elas se chocam no caminho e penso ver uma resposta. Mas deve ser minha imaginação.
A insaciável, depois de procurar no alto dos montes, em imagens sem rosto e no fundo de poços abandonados, passou a ir de beco em beco, aguardando ansiosamente a revelação de uma fresta num canto, a simetria em uma mancha na parede ou redemoinho de pó. Deteu-se a decifrar as vigas subterrâneas da vida.
O contato com restos de comida e plásticos das sarjetas tornou-a mais desperta ao mundo sensível – mas o que ela buscava encontrava-se além do lodo no qual se punha a questionar o reflexo do céu – fazendo com que todo a relação direta com a realidade se tornasse intolerável. Assim, uma simples pedrinha hachurada era indício de um rio antepassado e uma clareira; uma ponta de lápis, uma semente perdida no interior da terra e do tronco que se transforma em pedra, em cadeias de referência que se desdobravam ao infinito.
Viveu desta forma por muitos anos, apreendendo o mundo através do conhecimento pleno dos signos, sem, contudo, encontrar nada, nem sequer uma trilha absoluta, uma pegada inequívoca. Nada.
No fim da vida teve um colapso nervoso; caiu de cama. O trato diário fazia-a encostar muito em si mesma. Nunca imaginou tantas certezas concretas ali. Com a ponta do dedo se perscrutava longamente, cada orifício e articulação. Em meio às dobras de seu corpo, ela encontrava, enfim, uma pequena centelha de satisfação. Uma satisfação morna como uma toca.
Nesses primeiros meses, ela-coelho levantava-se cedo, caminhava até a mesa e, ainda trêmula, escrevia suas úmidas visões. Ela, a louca.
A caixa
Encontrei-a aqui, em frente à escada. Abria-a. A princípio não consegui identificar seu conteúdo, somente após a expectativa e o impacto decorrente – somente neste momento em branco no tempo – as formas e as cores foram se delineando em minha vista. O receio ou aquele sentimentozinho que antecede o despir-se diante do espelho forçou-me a levantar e olhar distanciado para o que estava na caixa. Em primeiro plano, canetas (de várias cores, tamanhos e marcas, dentre as quais uma falsificação de mont blanc igual a que eu possui), uma caixa velha de grampos, ou seja, objetos de escritório, de algum escritório da redondeza prestes a fechar. Porém esta impressão era equivocada, pois em seguida, colados a um dos lados internos da caixa vi – ou pensei ter visto – cartões-de-natal parecidos com aqueles que compramos apressados na véspera do Natal. Um pequeno troféu aparecia por baixo de um guia de turismo e mais embaixo, no fundo da caixa, entrevia um pedaço de cartolina suja (acho que era a outra ponta da caixinha de grampos). Havia muitas outras coisas ali dentro, mas agora a única que parece ser digna de nota é o calendário antigo. Torci o pescoço e olhei a data marcada na folhinha: 14 de Maio de 1979. Foi exatamente nesta data que ... ainda não encontrei um nexo entre estas coisas – tanto delas entre si como de seu conteúdo com um possível acontecimento. Mil sugestões percorrem minha mente, saindo de diversos pontos, indo a lugares improváveis – às vezes elas se chocam no caminho e penso ver uma resposta. Mas deve ser minha imaginação.