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9.26.2005
Saltou durante o intervalo em que o trem havia parado, porque, de repente, notara que já conhecia a estação para a qual se dirigia – fizera o trajeto muitas vezes. Segundos antes olhara o relógio no pulso do homem ao seu lado, concentrando-se em uma testa suada, para novamente olhar o relógio do homem ao seu lado. Fora até a porta que divide os vagões, abrira-a e saltou. O som do impacto nas pedras negras da linha férrea assustou-o, por isso afastou-se do trem rápido, indo refugiar-se entre algumas moitas, à margem. Não demorou muito e um vagão arrastou outro, aos trancos, pondo-se todos em movimento. Ele aguardou que se afastassem, olhou em direção à curva de onde o trem havia chegado. Depois virou e olhou em direção oposta, surpreendendo os últimos vagões que se perdiam numa curva. Estava no meio do caminho, ponderou. Caminhou para a borda, onde o cascalho barrava o mato. Devido à irregularidade das pedras, a caminhada era difícil, porém ele não se importava com isso. Pensava em quantas vezes passou por ali. O sol arrastava-se bem acima e ouvia-se ao longe o grito cansado de uma buzina de alerta. Completamente deserta, a única quebra na monotonia da linha de trem eram as touceiras da margem. Ele percebia que eram diferentes umas das outras ao longo da trilha que percorria.
Nós o vemos, entretanto ele não nos notará. Está sentado em sua grande cadeira de madeira, de costas. Separando suas costas de nós há o corredor escuro, entre dois paredões de prateleiras com seus livros: seus livros são duros como granito. A única luz, débil luminosidade dos olhos de um coelho ou redemoinho de água sumindo no ralo, adentra na caverna pela única janela. O homem, imóvel, sentado em frente a ela, gravará signos imortais. Algo passa do lado de fora da janela, dividindo a paisagem plácida em duas; porém passa rápido. Mais uma vez corta a janela. É colorida – leve, pequenina, subindo incerta e frágil, mas colorida o bastante para atordoar o eterno azul celeste e o puro branco das nuvens, que balançam agora da esquerda para a direita, dois velhinhos de mãos dadas. A pipa voa. Parece que voou desde sempre, apesar de só agora a termos avistado em sua precariedade. O homem continua segurando firme seu instrumento, a escrever e reescrever sem fim importantes notícias aos homens, por isso está muito inclinado sobre o papel – o papel em branco é um mundo sem pecado original, o qual se delineará necessariamente ao correr da primeira frase, portanto é preciso ser exato e segurar seu instrumento com a mão firme que se assemelha a uma pinça. Ele move as antenas levemente para baixo e pára a refletir.
De fato, ele á um artista, e embora não vejamos seu rosto podemos pressentir a contorção febril que transforma-o e antecede a criação. Nós sabemos que ele descreverá nossos anseios mais íntimos, por isso nos retiramos de cabeça baixa. Por pudor e reconhecimento. Lá fora estão nossos filhos, profanando o céu com poesias de papel, nos aguardando sem ansiedade alguma.
Nós o vemos, entretanto ele não nos notará. Está sentado em sua grande cadeira de madeira, de costas. Separando suas costas de nós há o corredor escuro, entre dois paredões de prateleiras com seus livros: seus livros são duros como granito. A única luz, débil luminosidade dos olhos de um coelho ou redemoinho de água sumindo no ralo, adentra na caverna pela única janela. O homem, imóvel, sentado em frente a ela, gravará signos imortais. Algo passa do lado de fora da janela, dividindo a paisagem plácida em duas; porém passa rápido. Mais uma vez corta a janela. É colorida – leve, pequenina, subindo incerta e frágil, mas colorida o bastante para atordoar o eterno azul celeste e o puro branco das nuvens, que balançam agora da esquerda para a direita, dois velhinhos de mãos dadas. A pipa voa. Parece que voou desde sempre, apesar de só agora a termos avistado em sua precariedade. O homem continua segurando firme seu instrumento, a escrever e reescrever sem fim importantes notícias aos homens, por isso está muito inclinado sobre o papel – o papel em branco é um mundo sem pecado original, o qual se delineará necessariamente ao correr da primeira frase, portanto é preciso ser exato e segurar seu instrumento com a mão firme que se assemelha a uma pinça. Ele move as antenas levemente para baixo e pára a refletir.
De fato, ele á um artista, e embora não vejamos seu rosto podemos pressentir a contorção febril que transforma-o e antecede a criação. Nós sabemos que ele descreverá nossos anseios mais íntimos, por isso nos retiramos de cabeça baixa. Por pudor e reconhecimento. Lá fora estão nossos filhos, profanando o céu com poesias de papel, nos aguardando sem ansiedade alguma.
duas notas dissonantes
O Morro.
Tirando e espalhando. Caindo. Em cima do morro. Alto. A perna afunda. No lixo. O morro é feito dele. Puxa a perna. Pra cima. A outra. Parece marionete. Se curva. Uma cabeça. É de boneca. Borracha. Olhos azuis. Lascas. Descascando. Vasculha. Remexe. A dureza do ferro de aço de construção. A textura do papel. Um bicho morto. É o fedor. Gato. Não. Cachorro. A cabeça é grande. Uma bolsa. Documentos. sacola molhada. Pegando e comento. Pedras. Pedras que machucam os dedos. As pedras estavam debaixo de um ramo de margaridas marrons. Uma. Viva. Na pedra. Ele. Com o saco nas costas. Pára.
Abaixa a mão. A pedra prende sua mão. A abaixa.
Coloca em cima da flor.
Viva.
Segura a pedra presa ainda no chão.
Viva.
Depois solta.
Devagar.
Seria perigoso. Alguém visse.
Novo quarto.
Vai chamar Melguibisson. O quarto? Dele vai ser encima da garage. É porisso que estamos reformando a garage. Olhe, é assim: como o teto da garage é muito alto, é assim que vamos fazer: uma lage dividindo a garage em dois – a parte debaixo continua a garage; a parte decima vai ser o quarto dele. Mas como é da garage que entra na casa, pela escadinha, precisa fazer uma outra escadinha da casa para o quarto dele. A casa fica um andar acima da garage, que fica na altura da rua. Entenda: como agora o teto da garage é um puxado do teto mesmo da casa, e vai ser repartida no meio, para o quarto do menino, da casa para o quarto vai ter uma diferença de chão de um metro, daí a escadinha. O problema é que a sala já é pequena, e uma escada vai ocupar o espaço dos móvel – acho que vou tirar a potrona – e mesmo o teto da sala vai ser na metade do quarto do menino, porisso vai ser difícil de entrar lá pela escadinha. Ah, é? Espero que o senhor consiga.
A maldição do marido.
No dia do casamento houve uma grande festa no vilarejo. Ela, ainda uma menina, esperou tensa pela noite de núpcias. Após a cerimônia na capela, foi levada pelos parentes do esposo ao quarto onde o casamento deveria se consumar. Era o quarto mais afastado da casa familiar. Foi indicado que se deitasse e aguardasse, pois seu marido logo viria. Ela se deitou; logo adormeceu. Despertou no meio da noite com o barulho no quarto, iluminado somente pela luz da lua. Viu então ao lado da cama um grande porco, e como se assustou, deu um grito, porém o porco lhe disse: “não é preciso, minha querida. Sou eu, seu marido, que estou nesta forma por causa de uma maldição lançada sobre mim. Devo permanecer na figura de homem apenas durante o dia; à meia-noite me transformo no que pode ver, mas ao amanhecer volto a ser homem.”A moça entristeceu-se, queria um marido completo, alguém que pudesse leva-la para passear pela praça etc. Mas no decorrer dos meses, quando o marido voltava do emprego, sempre com uma surpresa nova e o jantar que faziam juntos, ela aprendeu a contentar-se com aquela situação. Até uma certa noite quando acordou e, virando na cama, notou uma marca funda de dentes no pescoço gorduroso do marido. Escandalizou-se, mas o marido, no dia seguinte, repetia: “Nunca incentivei qualquer ilusão sua: é meu fado. Expliquei-lhe desde o inicio. Não é possível ...”. Nas noites que se seguiram o porco passou a voltar embriagado, cheirando a uma mistura de perfumes fortes. Deitava-se no tapete e adormecia. Ela chorava muito. Uma manhã antes do nascer do sol – ela já percebera como no alvorecer o porco abria sua pele para dar saída ao homem, que a apanhava do chão e guardava-a no bolso do casaco – a moça tomou-lhe a pele dobrada e a picou em mil tirinhas. Quando o primeiro raio de sol encostou no marido, este desapareceu.
( fábula albanesa (per) vertida ao português por mim)
Tirando e espalhando. Caindo. Em cima do morro. Alto. A perna afunda. No lixo. O morro é feito dele. Puxa a perna. Pra cima. A outra. Parece marionete. Se curva. Uma cabeça. É de boneca. Borracha. Olhos azuis. Lascas. Descascando. Vasculha. Remexe. A dureza do ferro de aço de construção. A textura do papel. Um bicho morto. É o fedor. Gato. Não. Cachorro. A cabeça é grande. Uma bolsa. Documentos. sacola molhada. Pegando e comento. Pedras. Pedras que machucam os dedos. As pedras estavam debaixo de um ramo de margaridas marrons. Uma. Viva. Na pedra. Ele. Com o saco nas costas. Pára.
Abaixa a mão. A pedra prende sua mão. A abaixa.
Coloca em cima da flor.
Viva.
Segura a pedra presa ainda no chão.
Viva.
Depois solta.
Devagar.
Seria perigoso. Alguém visse.
Novo quarto.
Vai chamar Melguibisson. O quarto? Dele vai ser encima da garage. É porisso que estamos reformando a garage. Olhe, é assim: como o teto da garage é muito alto, é assim que vamos fazer: uma lage dividindo a garage em dois – a parte debaixo continua a garage; a parte decima vai ser o quarto dele. Mas como é da garage que entra na casa, pela escadinha, precisa fazer uma outra escadinha da casa para o quarto dele. A casa fica um andar acima da garage, que fica na altura da rua. Entenda: como agora o teto da garage é um puxado do teto mesmo da casa, e vai ser repartida no meio, para o quarto do menino, da casa para o quarto vai ter uma diferença de chão de um metro, daí a escadinha. O problema é que a sala já é pequena, e uma escada vai ocupar o espaço dos móvel – acho que vou tirar a potrona – e mesmo o teto da sala vai ser na metade do quarto do menino, porisso vai ser difícil de entrar lá pela escadinha. Ah, é? Espero que o senhor consiga.
A maldição do marido.
No dia do casamento houve uma grande festa no vilarejo. Ela, ainda uma menina, esperou tensa pela noite de núpcias. Após a cerimônia na capela, foi levada pelos parentes do esposo ao quarto onde o casamento deveria se consumar. Era o quarto mais afastado da casa familiar. Foi indicado que se deitasse e aguardasse, pois seu marido logo viria. Ela se deitou; logo adormeceu. Despertou no meio da noite com o barulho no quarto, iluminado somente pela luz da lua. Viu então ao lado da cama um grande porco, e como se assustou, deu um grito, porém o porco lhe disse: “não é preciso, minha querida. Sou eu, seu marido, que estou nesta forma por causa de uma maldição lançada sobre mim. Devo permanecer na figura de homem apenas durante o dia; à meia-noite me transformo no que pode ver, mas ao amanhecer volto a ser homem.”A moça entristeceu-se, queria um marido completo, alguém que pudesse leva-la para passear pela praça etc. Mas no decorrer dos meses, quando o marido voltava do emprego, sempre com uma surpresa nova e o jantar que faziam juntos, ela aprendeu a contentar-se com aquela situação. Até uma certa noite quando acordou e, virando na cama, notou uma marca funda de dentes no pescoço gorduroso do marido. Escandalizou-se, mas o marido, no dia seguinte, repetia: “Nunca incentivei qualquer ilusão sua: é meu fado. Expliquei-lhe desde o inicio. Não é possível ...”. Nas noites que se seguiram o porco passou a voltar embriagado, cheirando a uma mistura de perfumes fortes. Deitava-se no tapete e adormecia. Ela chorava muito. Uma manhã antes do nascer do sol – ela já percebera como no alvorecer o porco abria sua pele para dar saída ao homem, que a apanhava do chão e guardava-a no bolso do casaco – a moça tomou-lhe a pele dobrada e a picou em mil tirinhas. Quando o primeiro raio de sol encostou no marido, este desapareceu.
( fábula albanesa (per) vertida ao português por mim)
Cláudio
No pomar.
Eles corriam para o lugar perto do rio, onde fariam, mais tarde, a fogueira. Ele parou no meio do pomar. Estava cansado. A mangueira carregada de pequeninas flores amarelas parecia coberta por um véu. Cláudio nunca havia visto algo tão delicado como aquelas minúsculas flores presas nos talos róseos. Ao toque de uma brisa mais forte ele percebia sucessivas chuvas de florzinhas. O chão em volta da velha árvore era um lago amarelado. Ele já podia ouvir longe os gritos das primeiras brincadeiras na água. Paulo, filho do caseiro, ensinou-os provavelmente a se pendurar no galho da goiabeira e saltar no rio. Cláudio se aproximou de um ramo de flores mais baixo. Atrás desse havia outro ramo, mas neste as flores haviam se transformado em dezenas de diminutas bolinhas verdes. É o começo das mangas, exclamou, todas tão pequenas ... Deu alguns passos para trás, queria admirar a grande mangueira, seus galhos espaçados, cada talo de flores se transformaria numa constelação de bolinhas verdes. Foi novamente até o cacho com as manguinhas. Começou a ouvir os gritos dos outros. Certamente reclamavam de sua demora, chamando-o apressados. Cláudio tocou suavemente com a ponta do dedo em uma das manguinhas. A manguinha se soltou e caiu. Ele olhou as outras minúsculas esferas do cacho, se afastando, observando os demais ramos, dos mais altos aos mais baixos. Prestando mais atenção, Cláudio viu que o chão estava forrado de pequenas esferas. Olhou para o lado do rio. À sua frente havia um abacateiro alto de casca escura, com três ou quatro bolas penduradas entre as folhas. Suas cascas eram escuras também.
No rio.
Cláudio olhava repetidas vezes para Roberta, irmã de Pedro, que estava sentada distante da fogueira, encostada em uma árvore. Ela parecia triste, mas Cláudio não a conhecia, mal se falaram desde a sua chegada. Não podia ter certeza, talvez só estivesse cansada. Parecia muito triste. Seu irmão decidiu contar histórias de fantasma, e os outros ouviam atentos, emitindo risos ou murmúrios a cada novo detalhe macabro. Era uma casa velha, na beira daquele mesmo rio, Parassununga, mais para o lado do Paraná, onde um homem tinha se enforcado ... Cláudio se perguntava no que ela estaria pensando. De vez em quando Roberta traçava riscos no chão com um graveto. De onde ele estava, o desenho lembrou-lhe dois círculos, mas as sombras do fogo não ajudavam a decifrá-lo. Ela é bonita, surpreendeu-se repetindo mentalmente. Já havia visto seus olhos grandes, jabuticabas, brilhando quando ela sorriu no rio. O mergulho jogou muita água pra cima. Bonita mesmo. Pensava nestas coisas enquanto se levantava para jogar um ou outro graveto no fogo. Numa dessas vezes encontrou no chão, bem próxima às brasas, uma mariposa gorducha, de barriga para cima, se sacudindo toda. Não conseguia voar. As asas estavam queimadas. Cláudio teve pena da mariposa e tentou ajudá-la, desvirando-a com a ponta do pé, barroso. A mariposa, com o contato do pé dele, começou a se debater desesperadamente e a soltar uma água da grande bunda, se defendendo. Depois parou de se mexer. Cláudio cavou um buraquinho e enterrou-a. Quando voltou para seu lugar ao fogo, ele olhou para a arvore afastada. Roberta não estava mais lá. Dificilmente gostaria dele mesmo.
Eles corriam para o lugar perto do rio, onde fariam, mais tarde, a fogueira. Ele parou no meio do pomar. Estava cansado. A mangueira carregada de pequeninas flores amarelas parecia coberta por um véu. Cláudio nunca havia visto algo tão delicado como aquelas minúsculas flores presas nos talos róseos. Ao toque de uma brisa mais forte ele percebia sucessivas chuvas de florzinhas. O chão em volta da velha árvore era um lago amarelado. Ele já podia ouvir longe os gritos das primeiras brincadeiras na água. Paulo, filho do caseiro, ensinou-os provavelmente a se pendurar no galho da goiabeira e saltar no rio. Cláudio se aproximou de um ramo de flores mais baixo. Atrás desse havia outro ramo, mas neste as flores haviam se transformado em dezenas de diminutas bolinhas verdes. É o começo das mangas, exclamou, todas tão pequenas ... Deu alguns passos para trás, queria admirar a grande mangueira, seus galhos espaçados, cada talo de flores se transformaria numa constelação de bolinhas verdes. Foi novamente até o cacho com as manguinhas. Começou a ouvir os gritos dos outros. Certamente reclamavam de sua demora, chamando-o apressados. Cláudio tocou suavemente com a ponta do dedo em uma das manguinhas. A manguinha se soltou e caiu. Ele olhou as outras minúsculas esferas do cacho, se afastando, observando os demais ramos, dos mais altos aos mais baixos. Prestando mais atenção, Cláudio viu que o chão estava forrado de pequenas esferas. Olhou para o lado do rio. À sua frente havia um abacateiro alto de casca escura, com três ou quatro bolas penduradas entre as folhas. Suas cascas eram escuras também.
No rio.
Cláudio olhava repetidas vezes para Roberta, irmã de Pedro, que estava sentada distante da fogueira, encostada em uma árvore. Ela parecia triste, mas Cláudio não a conhecia, mal se falaram desde a sua chegada. Não podia ter certeza, talvez só estivesse cansada. Parecia muito triste. Seu irmão decidiu contar histórias de fantasma, e os outros ouviam atentos, emitindo risos ou murmúrios a cada novo detalhe macabro. Era uma casa velha, na beira daquele mesmo rio, Parassununga, mais para o lado do Paraná, onde um homem tinha se enforcado ... Cláudio se perguntava no que ela estaria pensando. De vez em quando Roberta traçava riscos no chão com um graveto. De onde ele estava, o desenho lembrou-lhe dois círculos, mas as sombras do fogo não ajudavam a decifrá-lo. Ela é bonita, surpreendeu-se repetindo mentalmente. Já havia visto seus olhos grandes, jabuticabas, brilhando quando ela sorriu no rio. O mergulho jogou muita água pra cima. Bonita mesmo. Pensava nestas coisas enquanto se levantava para jogar um ou outro graveto no fogo. Numa dessas vezes encontrou no chão, bem próxima às brasas, uma mariposa gorducha, de barriga para cima, se sacudindo toda. Não conseguia voar. As asas estavam queimadas. Cláudio teve pena da mariposa e tentou ajudá-la, desvirando-a com a ponta do pé, barroso. A mariposa, com o contato do pé dele, começou a se debater desesperadamente e a soltar uma água da grande bunda, se defendendo. Depois parou de se mexer. Cláudio cavou um buraquinho e enterrou-a. Quando voltou para seu lugar ao fogo, ele olhou para a arvore afastada. Roberta não estava mais lá. Dificilmente gostaria dele mesmo.
9.21.2005
Seu irmão precisou voltar pra Minas, provavelmente a pedido da mãe. Combinaram então que ele pegaria a bicicleta ainda de madrugada. Para isso, o irmão deixou a chave de um cadeado, que junto com uma corrente grossa, unia a bicicleta ao portão da pensão. Com o que sonhou naquela sua primeira noite após o serviço ser passado a ele, é impossível saber. E em certa medida, também inútil. Passou a noite no escuro total. Talvez nem tivesse dormido, prova isso seu virar e revirar na cama. O trato era que devia estar na oficina às dez em ponto, senão o dono pagaria a outro mecânico. Ele não sabia, mas estava com medo, seria um começo para ele, nunca tinha feito isso. Seu negócio era motor. Levantou-se mal cantaram os galos mais velhos de capoeira, que pressentem no céu da madrugada opaca o gérmen da manhã. Queria urinar, àquela hora da manhã um canto qualquer do pátio servia. Foi soltar a bicicleta e é inevitável que um outro morador da pensão à janela viesse espiar, conhecedor da viagem do padeiro do quarto número 02. Mas na neblina incerta da noite sem dúvida confundiu o vulto daquele irmão que agora desenrola o correntão com o outro, que antes assim sempre o fez.Viagens se cancelam, se prorrogam. Por isso o rapaz, ao se virar para encostar a bicicleta na parede, não vê a luz da janela acesa. Duas horas depois, já é manhã. O rapaz, irmão do padeiro, carrega a bicicleta de volta à vila. Traz a cesta cheia de pães, cobertos com um pano bordado, quiçá feito pela mãe, que está lá em Minas, aflita com algo. Ele grita. Não é a primeira vez que o faz, nem a segunda, nem a sétima. Volta a gritar o reclame do seu serviço, Oi o padero, não grosso demais como no começo, mas compassado, como o canto de um pássaro. Assim a voz suportaria melhor as horas de trabalho que se seguiriam, afinal é só o inicio do dia.
No dia seguinte, o rapaz gritava tão bem quanto o irmão. Poucas donas-de-casa notaram a melhora, entretanto.
pedia para que olhasse no espelho da cabeceira, a fim de que fosse refletida no espelho inclinado, atrás de nós, virava-me para vigiar e ela pensava que era tara minha, que eu queria ver seu rosto às portas de se contorcer de gozo então ela fechava o olhinho e mordia os lábios, safada, eu falava para seus peitos, safada apertadinho tesão esquecia por poucos segundos por que viera até ali com ela, porém no carro me questionava por que não conseguia enxergar, nunca conseguia ver, íamos algumas vezes por semana, havia muitos espelhos, precisava dos espelhos, ela gostava quando pedia ai faz assim, avião, abre mais as pernas, olha pra lá, queria vê-la de relance a linha do rosto e principalmente os olhos isso, cadeira de perna quebrada, por isso sorria tanto boazinha e esgarçávamos os limites isso isso de repente eu mirava-a no espelho não iria demorar, um pouquinho de lado vira, só mais um pouco, vira, eu a observo pelo espelho ai seu rosto escondido pelos cabelos eu seguro-o, com força, ela pede, safada, pra lá e pra cá seu corpo era um grande esse de safada que logo virou o tedioso temos que conversar você tem outra não me beija não agora não não é nada disso eu fico por baixo você não me ouve quero te ver não hoje não te amo raquel ama raquel preciso te contar uma coisa contar é hã seus cabelos são um rebanho de ovelhas descendo as encostas fala logo porra te quero ver não entendi quero te ver de verdade não entendi raquel quero te ver por dentro aqui ó sou vermelha e molhada não não quero te ver por completo é louco como você é de verdade vamos fazer terapia nelson você não está esses livros estão te deixando burro raquel raquel nada de espelhos tá benzinho vou esquecer te amo tá minha sibilante você promete que não tem outra prometo vem parece que vejo um sorriso em seu rosto mas a boca extravasou e agora raquel chora abraço-a com todos os braços do mundo que foi raquel que foi acho que tô grávida porra reparando bem põe a mão raquel em sua barriguinha saliente fico mudo e parece que agora diviso algo
No dia seguinte, o rapaz gritava tão bem quanto o irmão. Poucas donas-de-casa notaram a melhora, entretanto.
pedia para que olhasse no espelho da cabeceira, a fim de que fosse refletida no espelho inclinado, atrás de nós, virava-me para vigiar e ela pensava que era tara minha, que eu queria ver seu rosto às portas de se contorcer de gozo então ela fechava o olhinho e mordia os lábios, safada, eu falava para seus peitos, safada apertadinho tesão esquecia por poucos segundos por que viera até ali com ela, porém no carro me questionava por que não conseguia enxergar, nunca conseguia ver, íamos algumas vezes por semana, havia muitos espelhos, precisava dos espelhos, ela gostava quando pedia ai faz assim, avião, abre mais as pernas, olha pra lá, queria vê-la de relance a linha do rosto e principalmente os olhos isso, cadeira de perna quebrada, por isso sorria tanto boazinha e esgarçávamos os limites isso isso de repente eu mirava-a no espelho não iria demorar, um pouquinho de lado vira, só mais um pouco, vira, eu a observo pelo espelho ai seu rosto escondido pelos cabelos eu seguro-o, com força, ela pede, safada, pra lá e pra cá seu corpo era um grande esse de safada que logo virou o tedioso temos que conversar você tem outra não me beija não agora não não é nada disso eu fico por baixo você não me ouve quero te ver não hoje não te amo raquel ama raquel preciso te contar uma coisa contar é hã seus cabelos são um rebanho de ovelhas descendo as encostas fala logo porra te quero ver não entendi quero te ver de verdade não entendi raquel quero te ver por dentro aqui ó sou vermelha e molhada não não quero te ver por completo é louco como você é de verdade vamos fazer terapia nelson você não está esses livros estão te deixando burro raquel raquel nada de espelhos tá benzinho vou esquecer te amo tá minha sibilante você promete que não tem outra prometo vem parece que vejo um sorriso em seu rosto mas a boca extravasou e agora raquel chora abraço-a com todos os braços do mundo que foi raquel que foi acho que tô grávida porra reparando bem põe a mão raquel em sua barriguinha saliente fico mudo e parece que agora diviso algo