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8.30.2005

Era Domingo. Tomava o café-da-manhã tranqüilamente, de calcinha e chinelos. Estava cedo demais para as crianças acordarem. Aproveitei para comer o cereal delas, mas as cores na caixa, cores fortes que destacavam formas geométricas distorcidas – eram letras, eu pressentia – impediram-me de descobrir se no cereal havia chocolate. Sou alérgica a chocolate. Era bom. Hum, era bom mesmo. Caramba. Mais acostumada com a colorida embalagem, pude ler sobre uma promoção, o brinde, uma miniatura de tanque de guerra, que vinha dentro da caixa. Enfiei a mão no meio dos flocos de cereais até o fundo da caixa, mexi e remexi, e nada. Só tem picaretagem no Brasil mesmo. Enfiei novamente e senti que havia um espaço morno onde meus dedos se moviam sem tocar em nada. Por fora, o pacote não tinha nenhum furo. Cismei. Enfiei o braço todo e fui entrando cada vez mais, as orelhas já raspavam nas paredes internas da caixa, dando-me arrepios. Empolgada como uma criança, tive que fechar os olhos e a boca quando mergulhei através dos flocos de milho e algumas bolinhas vermelhas, de cereja ou morango (pelo cheiro era morango) sentindo a temperatura aumentar em meu rosto conforme chegava à passagem. Caí sentada em um lugar pequeno e pouco iluminado. Uma perna e depois outra se aproximaram de minha cabeça. “Estou debaixo da mesa, em uma cozinha”. Por sorte, a toalha da mesa quase tocava o piso. Uma voz máscula disse algo, mas não consegui entender. A situação parecia absurda – “Cadê o tanque, o brinde?”- outras vozes surgiram, e conseqüentemente, mais pernas. “Oito pernas: quatro pessoas; a não ser que alguém aí em cima seja gêmeosiamês, ou gêmeo-siamês ... mas mesmo um gêmeosiamês é uma só pessoa, não é?”. Começaram a comer animadamente. Eu reparava sem nenhum interesse nos sapatos daquelas pernas ridículas – “acho que é frango”- esforçando-me para entender uma única palavra do que diziam. Em vão. Mas pelo som de cartilagens sendo moídas, só podia ser frango.


Ouvi gritos atrás de mim, olhei para fora e vi uma confusão, pessoas indo e vindo em direção a um homem barbado, no centro do grupo. – Uma galinha. É, ele dizia a um, não, não é pintada não, é branca. Gorda? Assim assim. Eu vi ela sim, de relance, virava-se para responder a outro, veio para cá ... – mas pelo olhar das pessoas ao redor ninguém tinha visto. “Uma galinha? O que uma galinha estaria fazendo no centro da cidade?”, eu refletia no instante em que percebi que as vozes se afastavam. Entrou um rapaz com uma pasta na mão – Alguém viu um pato passando por aqui? – Galinha, você quer dizer ..., tentei corrigi-lo. – Não, pato mesmo: o vendedor de relógios me disse que ele veio pra cá. Dissemos que não. “Esse pato deve ser muito especial”, ponderei enquanto terminava de tomar o suco, “parece que todos estão atrás dele”. De repente um tumulto na rua, duas pessoas com o tom de voz alterado discutiam, mas não pude reconhecer quem eram os envolvidos. Só depois pensei ter visto o homem barbudo do começo apontando para um homem moreno de jaqueta preta. Uma senhora, que notei, rodeara o conflito, veio sentar-se ao meu lado. Aproveitei o momento. Fiquei sabendo que os dois homens estavam discutindo porque um garantia que tinha visto uma galinha fugir pela rua; o outro jurava que era um galo. – e a senhora, indaguei simpático, o que acha? Ela me disse que se fosse um galo não se aproveitaria quase nada, no máximo faria um galo ao vinho, que é um prato muito fino e muito caro; por outro lado, uma galinha se criaria e teria-se o retorno em ovos, podendo-se matá-la, quando velha, para uma canja. Só podia ser uma galinha. Era melhor, né? A gritaria no meio do calçadão continuava. Despedi-me da senhora, paguei o suco e fui embora, ainda notando a ordem do dono da pastelaria à cozinha para prepararem “lápido a água que eu vou atlás do flango!”.

8.15.2005

o homem japonês 

O homem japonês tem uma pequena garagem, onde vende frutas e verduras. Os produtos estão expostos em prateleiras de madeira, encostadas à parede da esquerda e da direita. No meio do salão foi montada uma banca sobre dois cavaletes. Ali se coloca tomates, cebolas, couve e repolhos. No fundo, fumando seus cigarros amarelos, senta-se em um caixote o homem japonês. De quando em quando ele se levanta e vai para a frente do negócio, apanhando em silencio um maço vazio de cigarros jogado na calçada; outras vezes, ao perceber que um passante atirou algo no chão, corre até a calçada, falando sons incompreensíveis. Recolhe o pedaço de papel – pode ser um lenço de papel, um papel de sorvete – e cuidadosamente o põem no bolso da calça parda. O homem japonês parece ter cinqüenta anos. Seus bigodes ralos, nesses momentos de irritação, lembram as costas arrepiadas dos gatos. Ele trabalha todos os dias até o anoitecer, exceto no domingo, quando fecha a quitanda na hora do almoço, saindo por uma porta nos fundos. Chega a sua casa por um corredor úmido. Deixa as chaves em cima da mesa da cozinha, senta-se na única cadeira e retira dos bolsos os pedaços de papel recolhidos durante o dia. São muitos. Coloca-os sobre a mesa, olhando-os indiferente, enquanto os espalha com o dedo indicador. Começa a dobrar os maiores, depois desfaz a dobradura e recomeça, mas dessa vez vagarosamente.

Tuca e Panda

por não saber o sexo do bichinho chamei-o de Tuca e Panda, este último nome em homenagem a um personagem de desenho animado conhecido de todos. Crolologicamente, primeiro batizei-o de Tuca, mas com o passar do tempo chamava-o e percebia que era o outro que virava o rosto para mim – notei assim a impossibilidade de nomeá-los. Para facilitar, Tuca ficou sendo o da cabeça marrom e Panda o da cabeça e peito brancos. Mas isso apenas no primeiro ano, pois passaram a trocar de pêlo constantemente, impedindo por completo sua identificação. Porém havia outro problema: como levá-los ao passeio. Tentativas frustradas mostraram-me ser esta tarefa impraticável ( um dia, no domingo, levei-os para um rápido passeio pela rua Nove de Setembro, mas Tuca empacou em uma lixeira, cheirando pateticamente, enquanto Panda teimava em seguir até o poste ... por fim, arrastei-os para dentro do quintal, indiferente a suas súplicas) por isso fui à oficina de meu tio, que é ferramenteiro, e expus-lhe o caso, de talvez ele fazer uma coleira dupla, com duplo gancho na guia em forma de ypsilon. – Não vai dar certo: acabaria em briga, disse-me. Obviamente causaria ciúmes a um a vantantagem de condizir o outro. Melhor seria, e continuou indo em direção a uma bancada no fundo do galpão, se você matasse um deles e assim mantivesse a independência do outro; apontou-me umas capsulas pequenas, que era " só misturar na água..." Mas para mim, fazer isto seria impossível, basta que eu veja como se divertem juntos, Tuca e Panda, correndo em círculos, às vezes dão saltos no ar que me impressionam ...

8.09.2005

De repente ele se esforçava tanto 

em obter um diploma, em começar uma carreira, com o mesmo empenho com que deixava de lado preocupações comuns a jovens, viagens, namoro, carro. Demonstrava ter traçado uma meta – olhava o relógio e já ia – atento às colunas econômicas dos jornais e à política internacional. Só pode ser as drogas, observavam os vizinhos quando o viam sair logo cedo de casa. Só pode ser. Os pais também não sabiam o que pensar. A mãe se aconselhava com santo Expedito, que o garoto fosse soltar pipa, correr atrás das menininhas, pintar o diabo, o que fosse!, mas que parasse com aquela encegueiração!, depois a mãe sentia pena do filho, tadinho, anda tão magrinho ...
Ele passou no vestibular. O curso mais concorrido da faculdade mais conceituada do país. Foi contratado por uma multinacional no semestre que se seguiu, Twister, era como chamavam-no na seção. No auge do sucesso profissional decidiu conquistar um cargo público, como representante no Congresso Nacional. Elegeu-se sem dificuldade.
A família, se sentindo há muito afastada do ilustre parente, quis fazer uma festinha de comemoração, coisa boba, só o bolo da tia Maria, para relembrar os velhos tempos ...
Mas no dia da festa ele estava longe, sentado em uma confortável poltrona do Hotel Wunderschönes Ort, em Frankfurt. Da alta janela da suíte, ele meditava, fazendo surpreendentes analogias entre as formigas e os seres humanos.

8.01.2005

Entre um virar de páginas e outro reparei nos passos dela pelo quarto. Algo como um som de tambor, ora apressado, ora pesado. Mas não liguei. A leitura entretinha-me há várias noites além do “você não vem?” e acho que por isso ela passou a me assediar, inicialmente com a boca na minha orelha, a lingüinha, depois senti suas mãos na braguilha e agora que abaixou minhas calças doêm-me as coxas sob seu peso enquanto se remexe cheia de gula – Srta. H. e Mário conversam na biblioteca. ai. Ele indica-lhe um grande volume vermelho, na segunda prateleira à direita – Traga aqui, por favor, você vai gostar. Às primeiras páginas, H. pensou que se tratava de uma enciclopédia comum, no entanto as figuras que separavam os capítulos traziam homens e mulheres nas posições sexuais as mais diversas. Mário colocou o livro aberto diante de H., malicioso. Queria vê-la embaraçada: “ ... o bom varão segurará sua fêmea inicialmente com desmedida força, pois é conhecido o gozo das mulheres com pancadinhas e apertos. Durante o coito, o varão viril se curvará erguendo seu (...)” – Comprei de um alfarrabista, murmurou. H. folheava aparentando desinteresse, ereta, movendo apenas o indicador e o anelar, como se fosse bater o martelo e dizer “Ordem!” – Nós poderíamos tentar, qualquer dia desses..., respondeu numa voz pausada, terminando por fechar o livro. Mário riu e tentou articular um gracejo, um gracejo simples, porém – o balançar regular de seu abdômen, pra frente e pra trás, detem-me. Vejo a sombra de sua cabeça na página, ergo mais o livro – não sei como a poltrona se reclina ( acho que ela acionou a alavanca usando o tornozelo) –, e sinto nos nós dos dedos os bicos duros de seus seios. Um breve intervalo desconexo e, recobrarei a leitura daquele ponto?, um puta esporro. Do branco original, vagamente familiar, vêm surgindo pontinhos negros que se agrupam e definem. Lá estão as palavras, as sempre-frescas, eternamente aptas a serem colhidas, esperando o sopro de uma mente para dançarem.
Volto a ler com redobrado interesse.

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