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4.24.2006
O Gigante
Quando o vi se aproximar de mim, estremeci. Pensei que pudesse vir parar do meu lado, esbarrar a mão em mim. De repente se machuca, se fere pra valer. Ele parecia um daqueles gigantes que vivem nas estórias de antigamente, Polifemo, Golias, Hércules. O homem quase tocava o teto do trem enquanto caminhava. Então reparei na bengala em sua mão. Ele guiava uma outra pessoa, uma mulher, também cega. Passaram lentamente. Pararam no fundo do vagão, provavelmente iriam dizer algo importante, sim, a mulher ajeita o cabelo, tira uma mecha rebelde que teima em ficar-lhe no rosto, uma mulher sempre tenta ficar mais bonita quando quer se ouvida. O gigante põe-se um pouco à frente, com as pernas ligeiramente afastadas para manter o equilíbrio. O trem se movimenta devagar. É o gigante quem fala. Pede uma colaboração, uma ajuda pelo amor de Deus, os tempos estão difíceis, falta comida, trabalho, falta ajuda gente, o chão está absurdamente limpo naquele vagão. Eles passam recolhendo as caridades, se chegam à porta, vão sair. O homem curva a cabeça, parece uma criança saindo de dentro de uma gruta. Fora, através da janela embaçada do vagão, vejo o majestoso Pico do Jaraguá, encoberto por muita poluição, distante, longe mesmo, diria que nem existe.
O Pico do Jaraguá é o fantasma de um mamute com uma presa só.
O Pico do Jaraguá é o fantasma de um mamute com uma presa só.
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